A solidão do Eremita #00374

Muitas pessoas olham a vida através das lentes do inconsciente e chamam isso de destino.
Na Justiça, isso amadurece.
O Louco acreditava que a vida simplesmente acontecia.
A Justiça revela que a consciência participa, continuamente, da realidade que experimenta.
Não de maneira mágica, nem simplista.
Mas por meio das escolhas, dos hábitos, das omissões, das palavras, das relações e da coerência entre o mundo interno e o externo.
É aqui que Jung, Jesus e o Tarô praticamente se encontram no mesmo ponto.
Jung diria: o inconsciente produz padrões.
Jesus diria: a árvore é conhecida pelos frutos.
A Justiça apenas coloca uma balança sobre a mesa e pergunta:
"Olhe para os frutos. Eles correspondem à árvore que você acredita estar cultivando?"
Essa, para mim, é a pergunta mais profunda desse arcano. Ela não acusa. Ela convida ao autoexame. E isso é muito mais transformador do que qualquer ideia de julgamento.
E o Arcano que melhor nos convida ao autoexame é o Eremita.
E o Eremita é um dos arcanos mais mal compreendidos do Tarô.
Ele não fala de simples solidão. Ele fala da coragem de interromper o barulho suficiente para ouvir a própria consciência.
Até aqui, a jornada vinha acontecendo muito em relação ao mundo. Agora ela se recolhe. Não porque o mundo deixou de importar, mas porque a consciência percebe que continuar caminhando sem parar para compreender a própria caminhada é apenas trocar movimento por agitação.

O Eremita não foge do mundo.

Ele desacelera para enxergá-lo melhor.

Depois que a Justiça revela que toda escolha produz consequências, a consciência percebe que não basta continuar caminhando.

É preciso compreender quem está caminhando.

No primeiro nível do jogo, o Eremita parece isolamento.

Silêncio.

Distanciamento.

As pessoas olham para ele e imaginam que desistiu da vida.

Mas, muitas vezes, ele apenas desistiu do ruído.

Descobriu que o excesso de vozes torna impossível reconhecer a própria.

Então ele recolhe os passos.

Não porque perdeu o interesse pelo mundo.

Mas porque deseja voltar a enxergá-lo sem as lentes que os outros lhe emprestaram.

Em níveis mais profundos, o Eremita compreende que há perguntas que nenhuma multidão responde.

Quem sou?

O que realmente acredito?

O que continuo repetindo apenas porque sempre foi assim?

O que ainda é meu e o que apenas herdei?

São perguntas que não suportam pressa.

Nem aplausos.

Nem plateias.

A lanterna que ele carrega não ilumina a estrada inteira.

Ilumina apenas o próximo passo.

E isso basta.

Porque a consciência amadurece quando aceita que não precisa conhecer todo o caminho antes de continuar andando.

Precisa apenas ver com clareza onde colocará o próximo pé.

O Eremita também aprende algo que poucos aceitam.

Estar sozinho não é o mesmo que sentir-se só.

Há quem viva cercado de pessoas e nunca encontre companhia para a própria alma.

Há quem caminhe sozinho por longos períodos e experimente uma profunda sensação de pertencimento à vida.

Solidão e solitude não são a mesma experiência.

Uma denuncia ausência.

A outra revela presença.

No nível mais alto desse arcano, o Eremita percebe que o conhecimento acumulado começa lentamente a transformar-se em sabedoria.

Conhecimento responde perguntas.

Sabedoria escolhe quais perguntas ainda merecem ser feitas.

Ele já não precisa convencer ninguém.

Nem provar que encontrou alguma verdade definitiva.

Descobre que toda certeza excessiva costuma ser sinal de pouca investigação.

E que a humildade nasce justamente quando percebemos o tamanho daquilo que ainda ignoramos.

Talvez essa seja sua maior lição.

A luz que realmente orienta não é aquela capaz de iluminar o horizonte inteiro.

É a que impede que nos percamos no próximo passo.

E, curiosamente, é quase sempre suficiente.

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