A Torre e a derrocada da Consciência... será? #00382
Ela desaba porque deixou de cumprir sua finalidade.
Depois que a consciência reconhece suas correntes no arcano do Diabo, torna-se inevitável perguntar:
Sobre quais desejos construí a minha vida?
No primeiro nível do jogo, a Torre assusta.
Ela representa perdas.
Mudanças bruscas.
Quedas.
Rupturas.
O fim de estruturas que pareciam sólidas.
Mas nenhuma torre cai de um dia para o outro.
Ela começa a ruir no instante em que deixa de servir à consciência e passa a servir ao ego.
Talvez por isso a Torre de Babel continue sendo uma das metáforas mais poderosas da humanidade.
Não porque homens tenham ousado construir uma torre.
Construir nunca foi o problema.
O problema foi acreditar que altura significava grandeza.
Que subir significava elevar-se.
Que alcançar o céu dispensava o trabalho de transformar o próprio coração.
A torre cresceu.
Mas seus construtores começaram lentamente a perder a capacidade de compreender uns aos outros.
Cada um passou a falar sua própria língua.
E quando a linguagem comum desaparece, toda construção coletiva começa a rachar.
Talvez Babel nunca tenha deixado de existir.
Ela apenas tenha mudado de endereço.
Pode instalar-se numa religião quando a doutrina se torna mais importante do que a experiência espiritual.
Numa empresa quando os resultados passam a valer mais do que as pessoas.
Numa família quando o orgulho impede qualquer reconciliação.
E também numa universidade.
A universidade nasce para reunir diferentes formas de conhecer o mundo.
Mas pode transformar-se em torre quando cada área passa a defender seu território como se fosse o próprio mundo.
Cada pesquisador aperfeiçoa sua linguagem.
Cada grupo fortalece suas referências.
Cada especialidade produz conhecimentos cada vez mais sofisticados.
E, curiosamente, torna-se cada vez mais difícil conversar com quem olha a realidade por outra janela.
Não é um defeito da universidade.
É um risco permanente da consciência humana.
Toda especialização corre o perigo de esquecer o todo.
Toda identidade corre o risco de apaixonar-se pelo próprio reflexo.
E toda torre construída apenas para confirmar sua própria importância começa, silenciosamente, a perder os alicerces.
Em níveis mais profundos, a consciência percebe que a Torre não destrói aquilo que é verdadeiro.
Ela apenas revela aquilo que nunca esteve realmente firme.
Ela derruba personagens.
Crenças absolutas.
Pretensões de controle.
Imagens cuidadosamente construídas para convencer os outros e, muitas vezes, a nós mesmos.
É por isso que a Torre dói.
Não porque nos tira algo essencial.
Mas porque nos devolve aquilo que tentávamos esconder.
No nível mais alto desse arcano, a consciência deixa de perguntar:
"Por que tudo desmoronou?"
E passa a perguntar:
"O que esta queda finalmente me permitiu enxergar?"
Essa pergunta muda completamente o significado da ruína.
A queda deixa de ser fracasso.
Passa a ser revelação.
A torre deixa de representar um castigo.
Passa a representar um limite.
Nenhuma estrutura construída para alimentar o ego permanece para sempre.
Porque a vida parece ter um compromisso inegociável com a verdade.
E toda vez que confundimos crescimento com altura, conhecimento com superioridade, poder com consciência ou sucesso com plenitude, ela nos convida, cedo ou tarde, a descer.
Talvez essa seja a maior lição da Torre.
Não são as construções que desabam.
São as ilusões de que poderíamos viver para sempre dentro delas.
Quando a poeira finalmente baixa, percebemos algo que o medo jamais permitiu enxergar.
O céu nunca caiu sobre nós.
Foi apenas o teto que desapareceu.
E, pela primeira vez, a consciência pode olhar para cima sem a mediação das paredes que ela mesma havia erguido.
É exatamente nesse instante que nasce a Estrela.
Comentários
Postar um comentário
🪐 Deixe seu rastro no caos... Ideias, dúvidas ou enigmas existenciais? Aproveite para comentar enquanto ainda estamos todos no mesmo plano.
Ajude outros a transcender também. ✨