A Torre e a derrocada da Consciência... será? #00382

E aqui o Tarô faz uma das coisas mais brilhantes de toda a jornada.
Depois do Diabo não vem um prêmio, vem a Torre.
E isso faz todo sentido, porque ninguém derruba voluntariamente uma prisão sem que alguma estrutura desmorone junto.
O Diabo pergunta: "O que ainda o aprisiona?"
A Torre responde: "Então prepare-se para ver ruir tudo o que foi construído sobre essa prisão."
Percebe a elegância?
A Torre não é um castigo. Ela é uma consequência.
Se a Temperança integrou e o o Diabo revelou as correntes, a Torre mostra que muitas das nossas construções existiam justamente para protegê-las.
É por isso que tantas pessoas têm medo da Torre, não é porque ela destrói, mas porque ela desmente, ela desmonta narrativas, ela expõe autoenganos e faz cair personagens.
Ela mostra que o edifício era bonito, mas as fundações eram frágeis.

Veja como a sequência do amadurecimento da Consciência em cada esfera, em cada arcano:

Louco: Eu posso.
Mago: Eu faço.
Sacerdotisa: Eu percebo.
Imperatriz: Eu crio.
Imperador: Eu sustento.
Hierofante: Eu aprendo.
Enamorados: Eu escolho.
Carro: Eu caminho.
Justiça: Eu respondo.
Eremita: Eu observo.
Roda: Eu reconheço os ciclos.
Força: Eu integro meus instintos.
Enforcado: Eu mudo meu olhar.
Morte: Eu deixo morrer.
Temperança: Eu uno o que permaneceu.
Diabo: Eu descubro minhas prisões.
Torre: Agora vejo o que nunca esteve realmente de pé.

E há uma ironia maravilhosa nesta jornada: quase todo mundo quer chegar à Estrela, mas quase ninguém aceita passar pela Torre.
Só que existe um detalhe: a Estrela só brilha porque o teto caiu.
Enquanto a torre permanece intacta, ninguém enxerga o céu.

Acho que essa é uma das metáforas mais bonitas de toda a sequência.

A Torre não derruba o céu sobre nós.
Ela derruba o teto que nos impedia de vê-lo.
E talvez seja justamente por isso que, depois da Torre, pela primeira vez na jornada, aparece uma figura completamente exposta, vulnerável, sem armaduras, sem muralhas, sem máscaras.
A Estrela.
Ela não poderia existir antes.
Porque antes ainda havia paredes entre a consciência e o infinito.

E falando um pouco mais sobre a Torre, ela é qualquer construção que passa a servir mais ao ego do que ao desenvolvimento da Consciência.
É qualquer estrutura que deixa de existir para ampliar a visão e passa a existir para proteger uma identidade.
Nesse momento ela já começou a cair, mesmo que ainda esteja de pé.
Podemos pensar na Torre de Babel este seria um excelente exemplo porque, independentemente da interpretação religiosa, ela simboliza uma humanidade que acreditou que subir fisicamente significava elevar-se espiritualmente. O problema não era construir uma Torre, mas a motivação da construção.
Ou poderíamos inserir a universidade como outro exemplo. Quando ela nasce como lugar de encontro entre saberes e quando funciona bem, cumpre o seu papel.
Mas pode transformar-se em torre quando o conhecimento deixa de servir à verdade e passa a servir ao prestígio, à carreira, ao grupo ou ao ego intelectual.
Aí cada departamento cria seu próprio idioma.
Cada área passa a defender seu território.
Cada especialista conhece profundamente um fragmento da realidade e, paradoxalmente, perde a capacidade de conversar sobre a realidade inteira.
Não é um defeito exclusivo da universidade.
É uma tentação de qualquer ambiente especializado.
O mesmo acontece com igrejas.
Com partidos políticos.
Com empresas.
Com famílias.
Com escolas filosóficas.
Com comunidades espirituais.
Com autores.
Com terapeutas.
Com cientistas.
Com artistas.
Com qualquer lugar onde a identidade passa a ser mais importante do que a busca sincera pela verdade.

E quando a consciência do Louco chega à Torre, ela não desaba porque Deus se irritou.

Ela desaba porque deixou de cumprir sua finalidade.

Depois que a consciência reconhece suas correntes no arcano do Diabo, torna-se inevitável perguntar:

Sobre quais desejos construí a minha vida?

No primeiro nível do jogo, a Torre assusta.

Ela representa perdas.

Mudanças bruscas.

Quedas.

Rupturas.

O fim de estruturas que pareciam sólidas.

Mas nenhuma torre cai de um dia para o outro.

Ela começa a ruir no instante em que deixa de servir à consciência e passa a servir ao ego.

Talvez por isso a Torre de Babel continue sendo uma das metáforas mais poderosas da humanidade.

Não porque homens tenham ousado construir uma torre.

Construir nunca foi o problema.

O problema foi acreditar que altura significava grandeza.

Que subir significava elevar-se.

Que alcançar o céu dispensava o trabalho de transformar o próprio coração.

A torre cresceu.

Mas seus construtores começaram lentamente a perder a capacidade de compreender uns aos outros.

Cada um passou a falar sua própria língua.

E quando a linguagem comum desaparece, toda construção coletiva começa a rachar.

Talvez Babel nunca tenha deixado de existir.

Ela apenas tenha mudado de endereço.

Pode instalar-se numa religião quando a doutrina se torna mais importante do que a experiência espiritual.

Numa empresa quando os resultados passam a valer mais do que as pessoas.

Numa família quando o orgulho impede qualquer reconciliação.

E também numa universidade.

A universidade nasce para reunir diferentes formas de conhecer o mundo.

Mas pode transformar-se em torre quando cada área passa a defender seu território como se fosse o próprio mundo.

Cada pesquisador aperfeiçoa sua linguagem.

Cada grupo fortalece suas referências.

Cada especialidade produz conhecimentos cada vez mais sofisticados.

E, curiosamente, torna-se cada vez mais difícil conversar com quem olha a realidade por outra janela.

Não é um defeito da universidade.

É um risco permanente da consciência humana.

Toda especialização corre o perigo de esquecer o todo.

Toda identidade corre o risco de apaixonar-se pelo próprio reflexo.

E toda torre construída apenas para confirmar sua própria importância começa, silenciosamente, a perder os alicerces.

Em níveis mais profundos, a consciência percebe que a Torre não destrói aquilo que é verdadeiro.

Ela apenas revela aquilo que nunca esteve realmente firme.

Ela derruba personagens.

Crenças absolutas.

Pretensões de controle.

Imagens cuidadosamente construídas para convencer os outros e, muitas vezes, a nós mesmos.

É por isso que a Torre dói.

Não porque nos tira algo essencial.

Mas porque nos devolve aquilo que tentávamos esconder.

No nível mais alto desse arcano, a consciência deixa de perguntar:

"Por que tudo desmoronou?"

E passa a perguntar:

"O que esta queda finalmente me permitiu enxergar?"

Essa pergunta muda completamente o significado da ruína.

A queda deixa de ser fracasso.

Passa a ser revelação.

A torre deixa de representar um castigo.

Passa a representar um limite.

Nenhuma estrutura construída para alimentar o ego permanece para sempre.

Porque a vida parece ter um compromisso inegociável com a verdade.

E toda vez que confundimos crescimento com altura, conhecimento com superioridade, poder com consciência ou sucesso com plenitude, ela nos convida, cedo ou tarde, a descer.

Talvez essa seja a maior lição da Torre.

Não são as construções que desabam.

São as ilusões de que poderíamos viver para sempre dentro delas.

Quando a poeira finalmente baixa, percebemos algo que o medo jamais permitiu enxergar.

O céu nunca caiu sobre nós.

Foi apenas o teto que desapareceu.

E, pela primeira vez, a consciência pode olhar para cima sem a mediação das paredes que ela mesma havia erguido.

É exatamente nesse instante que nasce a Estrela.


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