Amizades em modo aplicativo #00362


Existe um tipo de amizade contemporânea que não foi criada pelos aplicativos de relacionamento.

Os aplicativos só deram interface para algo que já existia.

A lógica é simples.

Presença sob demanda.

Afeto sob conveniência.

Continuidade sob baixa prioridade.

Funciona assim também fora das telas.

Pessoas entram e saem da vida umas das outras como quem circula entre abas abertas.

Uma hora você é companhia.

Noutra você é recurso emocional.

Noutra você é lembrança funcional.

E na maior parte do tempo você simplesmente não é.

Não por rejeição explícita.

Mas por ausência de necessidade imediata.

A relação só se ativa quando há vazio.

Quando há solidão.

Quando há quebra de outra narrativa mais interessante.

Ou quando a vida desorganiza o centro de gravidade de alguém.

Nesse momento, a amizade reaparece.

Como se nunca tivesse saído.

Mas ela saiu.

Ela sempre sai.

Só não deixa rastros dramáticos.

Apenas silêncio entre acessos.

O mais curioso é que isso não é exclusividade de homens ou mulheres.

Não é gênero.

Não é moral.

É padrão de funcionamento.

O mesmo ser humano que reclama da superficialidade dos aplicativos muitas vezes apenas migra o mesmo comportamento para fora deles.

Troca a plataforma.

Não o padrão.

E isso cria uma ilusão coletiva sofisticada:

a de que existe um lugar onde vínculos são mais autênticos.

Mas não existe lugar.

Existe apenas consciência.

Em alguns casos, a amizade não é laço.

É intermitência.

Não é presença.

É retorno.

E o retorno, quando não é sustentado por continuidade, vira apenas reativação de conveniência emocional.

Nesse cenário, ninguém é exatamente vilão.

E ninguém é exatamente vítima.

O que existe é uma coreografia social de baixa permanência com alta expectativa de significado.

E isso produz um efeito estranho:

todo mundo se sente meio sozinho, mesmo rodeado de gente.

Porque a conexão existe, mas não se fixa.

Ela circula.

Não aprofunda.

O Julgamento, nesse contexto, não é sobre culpar alguém. É sobre reconhecer o padrão sem romantizá-lo.

Ele aparece quando a consciência deixa de confundir retorno com vínculo, acesso com presença, conversa com continuidade, necessidade com escolha...

E, nesse ponto, algo muda de forma silenciosa.

Não nas pessoas.

Na leitura.

A amizade deixa de ser medida pela frequência do retorno.

E passa a ser medida pela qualidade da presença quando ela acontece.

E, talvez isso seja o mais difícil de aceitar:

há relações que são reais sem serem contínuas.

e há relações contínuas que nunca foram realmente presenciais.

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