Anatomia da solidariedade #00360

Outro dia precisei atravessar a rua carregando um móvel.

Não era uma tragédia.

Também não era exatamente leve.

Era uma daquelas tarefas que se tornam fáceis quando alguém resolve colocar uma das mãos.

No caminho havia vários homens.

Fortes.

Braços largos.

Peitos inflados pela academia.

Daqueles corpos que parecem anunciar disponibilidade física antes mesmo da primeira palavra.

Passei por eles.

Passei novamente.

Passei devagar.

Nenhum movimento.

Nenhuma pergunta.

Nenhum gesto.

O móvel parecia invisível.

Ou talvez invisível fosse eu.

Quem interrompeu o próprio caminho foi outro homem.

Trazia um cigarro entre os dedos.

As roupas carregavam marcas de muitos dias difíceis.

O rosto parecia ter conversado mais vezes com a bebida do que com a vaidade.

Olhou para mim.

Olhou para o móvel.

E perguntou apenas:

"Precisa de ajuda?"

Precisava.

Em menos de dois minutos o problema deixou de existir.

Agradeci.

Ele sorriu.

Mas não foi aquele sorriso protocolar de quem apenas cumpriu uma obrigação.

Era um sorriso de quem parecia feliz por ainda poder ser útil para alguém.

Fiquei pensando na estranha economia dos nossos olhares.

Vivemos avaliando pessoas pelas embalagens.

Força.

Beleza.

Elegância.

Cheiro.

Roupa.

Postura.

Como se tudo isso fosse certificado de caráter.

Não é.

Às vezes o corpo mais forte da rua carrega apenas músculos.

E o corpo mais desgastado ainda preserva uma delicadeza inteira.

Talvez porque a vida tenha lhe arrancado muitas coisas, mas não tenha conseguido arrancar a capacidade de enxergar alguém precisando de uma mão.

Os outros talvez fossem excelentes pais.

Excelentes amigos.

Excelentes pessoas.

Não sei.

Seria injusto condená-los por um único instante.

Mas também seria injusto desperdiçar o ensinamento daquele encontro.

Nem sempre quem parece mais inteiro conserva inteira a humanidade.

E nem sempre quem aparenta estar quebrado perdeu aquilo que realmente sustenta uma pessoa.

Enquanto eu agradecia, tive a impressão de que o favor não havia sido apenas meu.

Talvez ele também precisasse daquele pequeno acontecimento.

Da sensação de ainda ser visto para além do cigarro.

Para além das marcas do rosto.

Para além da aparência que tantos aprenderam a julgar antes mesmo de conhecer.

E então compreendi uma ironia bonita.

A ajuda nunca atravessou apenas a rua.

Atravessou um preconceito.

O meu.

Porque, durante alguns segundos, também esperei que a solidariedade viesse do lado onde a sociedade costuma colocar suas melhores expectativas.

Veio do outro.

E talvez seja exatamente por isso que eu ainda goste tanto de observar gente.

Os estereótipos costumam chegar antes.

Mas a humanidade, quando aparece, quase sempre escolhe uma porta que ninguém estava olhando.

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