Auditores independentes com direito a saques? #00356

Existe um tipo curioso de visitante doméstico.

Ele não toca a campainha como quem chega à casa de outra pessoa.

Ele entra como quem retorna a uma propriedade da qual nunca foi proprietário.

Abre a geladeira sem perguntar.

Levanta tampas de panelas.

Olha o interior dos armários.

Acende luzes.

Abre portas.

Acorda os moradores.

Liga a televisão.

Circula pelos cômodos com a desenvoltura de quem acredita conhecer o lugar melhor do que quem mora nele.

E talvez conheça mesmo.

Ou pelo menos acredita conhecer a versão da casa que existe dentro da própria cabeça.

Porque o problema nunca é a casa real.

É a comparação constante com uma casa imaginária.

Uma casa que serve de medida para todas as outras.

Naquela casa o arroz fica em tal lugar.

Naquela casa a carne é preparada de tal forma.

Naquela casa as toalhas são dobradas de outro jeito.

Naquela casa as pessoas organizam melhor as compras.

Naquela casa as coisas funcionam.

E toda vez que a realidade não coincide com a memória, surge um pequeno julgamento.

Quase sempre disfarçado de comentário.

Aqui não tem isso?

Nossa, lá não era assim.

Vocês deixaram acabar?

Mas por que está desse jeito?

Perguntas simples.

Inofensivas.

Até que se repetem por anos.

Até que deixam de ser perguntas e passam a ser auditorias.

A pessoa chega para pegar uma coisa que esqueceu.

Um cabo.

Uma ferramenta.

Uma roupa.

Uma encomenda.

Uma refeição.

Mas, de alguma forma, acaba levando também o direito de avaliar a gestão da casa.

Abre a geladeira.

Encontra uma comida separada.

Não pensa que alguém planejou aquela refeição.

Não pensa que alguém passou no mercado.

Não pensa que alguém organizou o próprio orçamento.

Pensa apenas que a comida está ali.

Disponível.

Como uma árvore produzindo frutos espontaneamente para qualquer mão que alcance o galho.

Então pega.

Come.

Fecha a porta.

E ainda reclama que não havia sobremesa.

A casa inteira parece funcionar segundo uma lógica estranha.

Tudo o que existe ali é visto como recurso.

Nunca como esforço.

A toalha limpa aparece magicamente.

A louça limpa aparece magicamente.

O papel higiênico aparece magicamente.

A comida aparece magicamente.

A internet funciona magicamente.

A energia elétrica permanece ligada magicamente.

A água continua saindo da torneira magicamente.

Nenhuma dessas coisas possui história.

Possuem apenas disponibilidade.

E disponibilidade, para certas pessoas, parece significar obrigação.

O mais curioso é que elas não se enxergam como invasoras.

Porque invasores sabem que estão entrando onde não pertencem.

Elas se enxergam como usuárias legítimas de uma estrutura permanente.

Como clientes de um serviço.

Como herdeiras de um direito.

Como frequentadoras de um espaço que deveria continuar funcionando exatamente da forma como elas esperam.

O detalhe que as surpreende é que casas envelhecem.

E quem mora nelas também.

A mulher que um dia passou horas organizando tudo para receber visitas talvez tenha descoberto outras prioridades.

Talvez esteja cansada.

Talvez tenha decidido que a própria paz vale mais do que a aprovação alheia.

Talvez não queira mais passar a vida administrando conforto para pessoas que aparecem apenas quando precisam de alguma coisa.

Talvez tenha aprendido uma verdade simples e quase escandalosa.

Uma casa não é um restaurante.

Não é um depósito.

Não é um posto de abastecimento emocional.

Não é um pronto-socorro para emergências domésticas.

Uma casa é o lugar onde alguém tenta existir.

E existir já dá trabalho suficiente.

Então chega um dia em que ela olha para a geladeira aberta.

Para os pratos vazios.

Para as migalhas esquecidas na mesa.

Para a bagunça deixada para trás.

E compreende algo que deveria ser óbvio, mas raramente é.

Nem toda pessoa que entra em nossa casa está interessada em nossa vida.

Algumas estão interessadas apenas naquilo que a casa pode fornecer.

E quando os recursos acabam, elas vão embora.

Quando a energia volta, vão embora.

Quando a fome passa, vão embora.

Quando a necessidade desaparece, vão embora.

Mas deixam para trás uma pergunta.

Talvez a pergunta mais importante de todas.

Se ninguém ajudou a construir isto, por que tantos acreditam ter o direito de administrá-lo?

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