Coleções #00358
Algumas pessoas que colecionam selos.
Outras colecionam moedas.
Eu coleciono frases infelizes.
Não por gosto.
Por sobrevivência.
Comecei sem perceber.
Alguém soltava uma observação atravessada.
Outra pessoa fazia um comentário carregado de superioridade.
Um terceiro distribuía uma grosseria embrulhada em forma de piada.
Na época, doía.
Hoje, eu anoto tudo.
Desenvolvi esse hábito curioso.
Enquanto alguns falam, já não estou apenas ouvindo.
Estou garimpando.
Porque descobri uma coisa sobre as frases.
Elas quase nunca falam sobre quem as recebe.
Falam sobre quem precisou dizê-las.
É fascinante.
A criatura acredita estar descrevendo o mundo.
Na verdade, está descrevendo a própria lente.
Outro dia levei um crochê.
Recebi como resposta:
"Faz mesmo. Se alguém entrar, você diz que não vai ter o que vestir amanhã."
Naquele instante, ela acreditou ter feito uma piada.
Eu encontrei um capítulo.
Não sobre crochê.
Sobre classe.
Sobre trabalho.
Sobre a estranha vergonha moderna de saber fazer alguma coisa com as próprias mãos.
Ela saiu dali.
A frase ficou.
É curioso como algumas pessoas passam pela vida distribuindo pequenos venenos sem imaginar que o organismo do outro aprendeu a fabricar antídotos.
Comigo aconteceu algo ainda mais inconveniente.
O antídoto começou a produzir literatura.
Hoje, sempre que alguém faz questão de me oferecer uma frase particularmente infeliz, sinto uma pontinha de gratidão.
Não pela grosseria.
Mas pelo material.
Ela deve sentir quando estou precisando escrever.
Só pode.
Aparece com uma frase cuidadosamente mal construída sobre o ser humano.
Nunca falha.
É uma espécie de colaboradora involuntária.
Enquanto acredita estar diminuindo alguém, amplia uma ideia.
Enquanto tenta encerrar uma conversa, abre um ensaio.
Enquanto distribui preconceitos em estado bruto, entrega minério.
O trabalho pesado fica comigo.
Separar o metal da escória.
Transformar ressentimento em reflexão.
Humilhação em linguagem.
Ironia em argumento.
A hostilidade alheia me fornece a matéria-prima.
Eu assumo a manufatura.
Há uma justiça silenciosa nisso.
Porque a estupidez costuma desejar o impacto imediato.
Já a literatura trabalha com juros compostos.
A frase que pretendia durar dez segundos passa a existir durante anos.
Não porque era inteligente.
Mas porque alguém resolveu estudá-la em vez de apenas respondê-la.
Talvez seja essa a minha forma favorita de vingança.
Não vencer a discussão.
Não devolver a ofensa.
Nem oferecer uma resposta mais afiada.
Prefiro coisa pior.
Prefiro eternizar o mecanismo.
A pessoa imaginava ter dito alguma coisa sobre mim.
Anos depois, descobre que acabou virando personagem de um texto sobre ela.
Sem nome.
Sem rosto.
Mas absolutamente reconhecível.
Existe um tipo raro de derrota.
É quando alguém tenta reduzir você ao tamanho de uma frase...
...e acaba aumentando o tamanho do seu livro.
Talvez seja por isso que eu já não tenha tanto medo das pessoas difíceis.
Elas costumam ser as mais generosas patrocinadoras da minha imaginação.
Nunca saberão.
Mas parte dos meus melhores textos foi financiada por comentários que pretendiam me diminuir.
No fim, elas produziram exatamente o contrário.
Achavam que estavam desperdiçando palavras.
Estavam investindo, sem saber, em literatura.
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