Crochê em ambiente insalubre #00357
Levei um crochê para o trabalho.
Não para fazê-lo durante o expediente. Para ocupá-lo nos intervalos, enquanto o café esfriava, enquanto o computador decidia pensar sozinho, enquanto o tempo, por alguns minutos, deixava de ser propriedade da produtividade.
No dia anterior eu havia comentado que cada pessoa crocheta por uma necessidade diferente.
Uns fazem porque precisam economizar.
Outros porque precisam descansar a cabeça.
Há quem encontre nos pontos um tipo de oração.
Há quem transforme ansiedade em manta.
Há quem transforme silêncio em tapete.
Há quem apenas goste da estranha alegria de ver um novelo virar alguma coisa que antes não existia.
Ela ouviu tudo.
No dia seguinte, olhou para o crochê e disse:
"Faz mesmo. Se alguém entrar, você diz que não vai ter o que vestir amanhã."
Sorri.
Não porque fosse engraçado.
Porque era um pequeno tratado sociológico em uma única frase.
Eu havia levado um novelo.
Ela enxergou um álibi.
Eu havia levado uma possibilidade de criação.
Ela enxergou uma justificativa para um flagrante.
Há pessoas que não observam objetos.
Observam culpas.
Existe uma criatividade que floresce exclusivamente para imaginar o pior.
Elas olham para uma linha e imaginam um processo administrativo.
Olham para uma pausa e imaginam preguiça.
Olham para uma pergunta e imaginam afronta.
Olham para alguém criando alguma coisa e imaginam que aquela pessoa precise se defender.
É uma maneira cansativa de atravessar o mundo.
Mas talvez ainda mais curioso seja aquilo que estava escondido por trás da piada.
A ideia de que fazer alguma coisa com as próprias mãos só faz sentido quando falta dinheiro.
Como se criar fosse uma confissão de pobreza.
Como se habilidade manual fosse um defeito social.
Como se dignidade fosse pagar para que outro fizesse.
Percebi, então, que não estávamos falando de crochê.
Estávamos falando de classe.
Durante séculos, saber fazer era motivo de orgulho.
Hoje, em muitos ambientes, saber fazer virou indício de que você não conseguiu terceirizar.
Quem cozinha parece menos sofisticado do que quem pede.
Quem costura parece menos importante do que quem compra.
Quem conserta parece inferior a quem substitui.
Quem planta parece atrasado diante de quem importa.
Quem faz é visto como alguém que ainda não alcançou o luxo de deixar de saber.
É curioso.
Quanto menos a pessoa depende das próprias mãos, mais acredita que subiu na vida.
Como se autonomia fosse atraso.
Como se dependência do mercado fosse evolução.
Talvez seja por isso que um simples crochê incomode tanto.
Porque ele denuncia uma liberdade quase esquecida.
A liberdade de transformar.
Você compra uma linha.
Mas o dinheiro compra apenas a linha.
Não compra o tempo.
Não compra a paciência.
Não compra a atenção.
Não compra o pensamento depositado em cada ponto.
Muito menos compra o prazer silencioso de olhar para alguma coisa e dizer:
"Fui eu quem fiz."
Talvez isso explique por que tanta gente estranhe quem ainda produz beleza sem pedir autorização ao mercado.
Ou ao chefe.
Ou ao olhar dos outros.
Enquanto algumas pessoas passam a vida inteira aperfeiçoando a arte de suspeitar, outras continuam aperfeiçoando a arte de criar.
Uma desfia relações.
A outra desfia novelos.
Uma produz comentários.
A outra produz cobertores.
Uma ocupa a cabeça imaginando culpados.
A outra ocupa as mãos fabricando calor.
E, olhando bem, talvez o crochê nunca tenha sido o assunto.
O assunto sempre foi outro.
Vivemos numa época que admira quem compra o pronto e desconfia de quem ainda sabe fazer.
Uma época em que a etiqueta vale mais do que a habilidade.
Em que a marca importa mais do que a autoria.
Em que o cartão de crédito recebe mais respeito do que as mãos.
Talvez por isso eu continue crochetando.
Não para economizar.
Nem porque não tenha o que vestir amanhã.
Mas porque, num mundo obcecado em consumir identidades prontas, fazer alguma coisa com as próprias mãos ainda me parece uma das formas mais discretas de permanecer inteira.
E talvez essa seja a ironia mais bonita de todas.
Enquanto alguns acreditam que o luxo está em nunca precisar fazer nada, há quem descubra que a verdadeira riqueza começa exatamente no instante em que as próprias mãos deixam de ser apenas ferramentas e voltam a ser extensão da alma.
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