Economia dos eleitos #00355

Existem pessoas que deveriam ser estudadas pela ciência.

Não pela psicologia.

Nem pela sociologia.

Muito menos pela teologia.

Pela física.

Porque elas desafiam as leis fundamentais do universo.

Todos nós crescemos aprendendo que recursos são finitos.

Dinheiro acaba.

Tempo acaba.

Energia acaba.

Saldo acaba.

Direitos são consumidos quando utilizados.

Mas algumas criaturas iluminadas parecem habitar outra dimensão.

Uma dimensão onde as reservas são eternas.

Conheci um homem assim.

Pastor.

Pregava desapego ao mundo material.

Pregava humildade.

Pregava compromisso com Deus.

Pregava responsabilidade financeira.

Especialmente responsabilidade financeira dos outros.

Uma vez um cheque meu de valor tão pequeno que hoje não compra nem um café retornou sem fundos.

Recebi uma repreensão quase celestial.

Deus não se agrada de cheques sem fundos.

A frase caiu sobre mim com o peso moral de uma nova tábua dos mandamentos.

Eu tinha dezessete anos.

Oito reais.

Oito.

Não oito mil.

Não oitenta mil.

Oito.

Uma quantia que atualmente mal consegue comprar uma garrafa de água em certos aeroportos.

Mas ali estava eu, oficialmente cadastrada entre os pecadores financeiros.

O curioso é que, enquanto Deus aparentemente monitorava meus oito reais com extrema atenção, parecia demonstrar uma serenidade admirável diante de certos fenômenos patrimoniais mais complexos.

O pastor comprava imóvel.

Comprava outro imóvel.

Comprava carro.

Comprava outro carro.

Tudo fruto da mesma rescisão trabalhista.

Uma rescisão lendária.

Uma rescisão que mereceria uma cadeira de honra nas faculdades de economia.

Enquanto investidores estudam Warren Buffett, deveríamos estar analisando aquele acerto trabalhista.

Passavam-se anos.

O patrimônio crescia.

A rescisão permanecia fértil.

Produzia apartamentos.

Produzia veículos.

Produzia patrimônio familiar.

Era praticamente uma árvore genealógica plantada em solo bancário.

Os bens, prudentemente, iam sendo registrados em nome dos filhos.

Talvez por amor.

Talvez por planejamento.

Talvez por uma estratégia financeira tão avançada que transcendia a compreensão dos fiéis.

Enquanto isso, meus oito reais permaneciam na memória coletiva como uma ameaça à ordem moral do universo.

Anos depois encontrei outro fenômeno semelhante.

No ambiente corporativo.

Uma colega.

Guardiã da moral administrativa.

Fiscal informal dos grampos.

Protetora dos toners.

Defensora dos recursos públicos.

Uma mulher capaz de detectar uma cópia desnecessária a cinquenta metros de distância.

Se alguém imprimisse duas folhas quando bastava uma, ela provavelmente sentiria uma perturbação na força.

Mas ela própria possuía um recurso extraordinário.

Férias não gozadas.

Duas férias.

Sessenta dias.

Um estoque acumulado décadas atrás.

Uma reserva histórica.

Uma espécie de petróleo administrativo.

Ela saía para resolver assuntos pessoais.

Salão.

Compras.

Manutenção do carro.

Passeios.

Compromissos diversos.

Almoços capazes de atravessar fusos horários.

E quando alguém perguntava como era possível, surgia a explicação.

São das férias.

Sempre as férias.

As mesmas férias.

As férias eternas.

As férias imortais.

As férias que se recusam a morrer.

As férias que desafiam a entropia.

As férias que continuam produzindo horas vinte anos depois.

Os cientistas discutem energia limpa.

Mas a solução estava ali o tempo todo.

Não era energia solar.

Era energia de férias acumuladas.

Uma fonte inesgotável.

Renovável.

Praticamente sustentável.

A certa altura comecei a suspeitar que essas pessoas pertencem à mesma espécie.

São os acumuladores de créditos infinitos.

Habitam um universo onde suas próprias exceções nunca se esgotam.

Mas os erros alheios são monitorados em tempo real.

Um grampo fora do lugar.

Uma folha impressa.

Um atraso de cinco minutos.

Um cheque de oito reais.

Tudo isso merece observação rigorosa.

Já suas próprias reservas especiais permanecem protegidas por um mecanismo misterioso.

Talvez seja um fenômeno psicológico.

Talvez seja uma estratégia social.

Talvez seja apenas uma característica humana muito comum.

A facilidade de enxergar o cisco na impressora do próximo enquanto se administra discretamente uma serraria inteira dentro de casa.

No fundo, não é sobre dinheiro.

Nem sobre férias.

Nem sobre imóveis.

Nem sobre cópias.

É sobre a capacidade quase artística que certas pessoas possuem de transformar seus privilégios em direitos adquiridos e os deslizes dos outros em falhas de caráter.

E talvez esse seja o verdadeiro milagre.

Não multiplicar pães.

Multiplicar justificativas.

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