O Diabo e suas correntes #00381
Agora, sim, chegamos ao arcano que, na minha opinião, muda completamente a leitura do Tarô quando é compreendido.
Porque o Diabo não vem depois da Morte por acaso.
Nem depois da Temperança.
Se ele viesse antes, a consciência não teria estrutura para reconhecê-lo.
Ela o confundiria com um inimigo externo.
Mas depois da Temperança acontece algo diferente.
A consciência já integrou muita coisa.
Já fez as pazes com boa parte de sua sombra.
E é justamente aí que o Diabo aparece.
Por quê?
Porque integrar não significa deixar de ser tentado.
Significa apenas que, agora, a tentação ficou mais sofisticada.
O Diabo não cria correntes.
Ele revela aquelas que aprendemos a amar.
Depois que a consciência começa a integrar suas polaridades, surge uma ilusão perigosa.
A de acreditar que finalmente está livre.
É nesse instante que o Diabo sorri.
Porque suas prisões mais eficientes nunca tiveram grades.
Tiveram conforto.
No primeiro nível do jogo, ele parece representar os excessos.
Os vícios.
Os desejos.
As dependências.
E representa tudo isso.
Mas apenas na superfície.
Porque nenhum vício sobrevive apenas pelo objeto.
Ele sobrevive pelo vazio que tenta preencher.
É por isso que duas pessoas podem beber o mesmo vinho.
Uma celebra.
A outra foge da própria vida.
O vinho nunca foi o problema.
A relação estabelecida com ele talvez seja.
O Diabo raramente obriga.
Ele seduz.
Oferece atalhos.
Promete poder sem responsabilidade.
Prazer sem consciência.
Controle sem liberdade.
Reconhecimento sem autenticidade.
E quase sempre entrega exatamente aquilo que prometeu.
Por algum tempo.
Depois apresenta a conta.
Em níveis mais profundos, a consciência percebe algo desconfortável.
Nem toda prisão dói.
Algumas acariciam.
Há correntes feitas de aprovação.
Outras de culpa.
Outras de identidade.
Outras de sucesso.
Outras até de espiritualidade.
O ego possui uma criatividade admirável quando precisa construir novas formas de permanecer no comando.
É por isso que o Diabo consegue vestir tantas máscaras.
Ele sabe que dificilmente seremos seduzidos pelo mal evidente.
Então aprende a disfarçar-se de virtude.
No nível mais alto desse arcano, a consciência deixa de perguntar:
"Do que preciso me libertar?"
E começa a perguntar:
"O que, em mim, continua encontrando prazer na própria prisão?"
Essa pergunta desmonta o arcano.
Porque o Diabo perde força quando deixa de ser um personagem externo e passa a ser reconhecido como um mecanismo interno.
Talvez essa seja sua maior lição.
Nenhuma corrente permanece presa apenas porque é forte.
Ela permanece porque alguma parte de nós continua acreditando que precisa dela.
E só existe liberdade verdadeira quando essa crença finalmente morre.
Em posts anteriores chegamos a falar algo sobre fazer crochê, sobre possuir o copo famoso, sobre igreja, sobre cabelos, sobre trabalho.
E parece que todos já estavam caminhando sobre um mesmo tema: pessoas tentando enquadrar o outro para preservar suas próprias prisões.
Isso é Diabo. Não no sentido moral, mas no sentido psicológico.
O Diabo odeia liberdade porque a liberdade obriga cada um a assumir a autoria da própria existência.
É muito mais confortável convencer todos a viverem dentro da mesma corrente.
E acho que aqui Jung, Jesus e o Tarô apertariam as mãos.
Jung diria que aquilo que permanece inconsciente nos governa.
Jesus diria: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."
O Diabo responderia, quase rindo: "Desde que você realmente queira ser livre."
Porque essa é a pergunta do arcano Diabo.
Será que queremos mesmo ou apenas queremos correntes um pouco mais bonitas?
Acho que este pode ser um dos arcanos mais fortes de nossa conversa até aqui.
Não porque estamos falando do Diabo, mas porque podemos entender que a escravidão mais resistente nunca é a imposta, mas a desejada, a interiorizada. E é justamente por isso que a carta seguinte é a Torre.
Porque quando as correntes caem, dificilmente a estrutura construída sobre elas permanece de pé.
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