o Hierofante #00369

O Louco pergunta: "E se eu experimentar?"
O Mago pergunta: "Como faço?"
A Sacerdotisa pergunta: "O que ainda não estou vendo?"
A Imperatriz pergunta: "O que pode nascer através de mim?"
O Imperador pergunta: "O que sou capaz de sustentar?"
Há uma progressão muito orgânica. Cada arcano não nega o anterior. Ele o amadurece.

Até o Imperador, a consciência aprende a lidar consigo e com aquilo que cria.
Com o Hierofante, ela descobre que ninguém começa do zero.
Todos herdamos um mundo que já estava em funcionamento quando chegamos.
É por isso que eu não o apresentaria como "o sacerdote" ou "o mestre espiritual". Isso é apenas a roupa simbólica dele.
A consciência que ele representa é outra: a consciência da tradição.

Olhando o Tarô como um "livro de lentes", o Hierofante pode ser o primeiro arcano que convida o leitor a olhar para as próprias lentes herdadas.
Ele nos pergunta: "Das verdades que você defende hoje, quantas você realmente escolheu?"
Percebamos a profundidade desta pergunta. 
Ela pode se tornar uma das mais marcantes de nossa conversa sobre este arcano, pois consegue resumí-lo inteirinho sem precisar falar de religião, sacerdócio ou dogmas, como muitos costumam abordar. E, se formos responder a ela sob as lentes do Hierofante, entenderemos que o convite deste arcano é que passemos à maturidade intelectual e espiritual, não à obediência cega de conceitos herdados.

O Hierofante não inventa.
Ele transmite.
Depois que o Imperador aprende a sustentar aquilo que construiu, surge uma pergunta inevitável.
Quem lhe ensinou a construir?
Porque ninguém chega ao mundo sabendo falar.
Ninguém nasce sabendo plantar.
Ninguém inventa sozinho uma língua, uma ciência, uma música ou uma civilização.
Antes de criar o novo, todo ser humano herda o antigo.
O Hierofante é a consciência dessa herança.
No primeiro nível do jogo, ele representa os mestres.
Os pais.
Os professores.
Os livros.
As tradições.
As religiões.
As universidades.
As culturas.
Tudo aquilo que nos entrega um mapa antes mesmo de sabermos caminhar.
E isso é um presente.
Quem acredita que aprende sozinho geralmente apenas esqueceu quem lhe ensinou.
Mas o jogo continua.
E o Hierofante amadurece.
Ele percebe que toda tradição nasceu, um dia, como inovação.
Alguém ousou.
Alguém experimentou.
Alguém errou.
Alguém encontrou um caminho que funcionou.
As gerações seguintes passaram a chamá-lo de tradição.
Então ele compreende algo delicado.
Nem tudo o que é antigo é sábio.
Nem tudo o que é novo é evolução.
A idade de uma ideia nunca foi garantia de sua verdade.
No início, o Hierofante obedece.
Depois, aprende.
Mais tarde, questiona.
E, finalmente, escolhe.
Porque chega um momento em que repetir deixa de ser fidelidade e passa a ser medo.
É preciso agradecer aos mestres sem se tornar prisioneiro deles.
É preciso honrar a tradição sem impedir que ela continue viva.
Em níveis mais profundos, o Hierofante descobre que o verdadeiro mestre nunca deseja discípulos eternos.
Deseja que eles caminhem com as próprias pernas.
Seu objetivo nunca foi produzir cópias.
Mas consciências.
No nível mais alto desse arcano, o jogador compreende que ensinar não é transferir respostas.
É despertar perguntas melhores.
E aprender não é decorar aquilo que os antigos disseram.
É compreender por que disseram.
Nesse momento, tradição deixa de significar repetição.
Passa a significar continuidade.
O rio permanece o mesmo.
Mas a água nunca é a mesma.
Talvez essa seja a maior lição do Hierofante.
Receber o legado dos que vieram antes sem abandonar a responsabilidade de deixá-lo um pouco melhor para os que virão depois.

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