O que não volta comigo #00361
Existem presenças que não sabem permanecer.
Sabem apenas aparecer.
Chegam quando há falta.
Quando há silêncio.
Quando há dor.
Quando há necessidade.
E confundem disponibilidade com território aberto.
No primeiro nível da experiência, parecem vínculos.
Mas com o tempo revelam outra natureza.
São ciclos de retorno.
Não de encontro.
Retornam quando precisam ser preenchidos.
E desaparecem quando a vida volta a se reorganizar.
Durante muito tempo, isso foi confundido com amizade.
Com proximidade.
Com laço.
Mas laços implicam reciprocidade.
E reciprocidade não sobrevive apenas em uma direção.
Em algum momento, a consciência começa a perceber o padrão.
Não como julgamento.
Mas como leitura.
Há pessoas que se alimentam da presença alheia sem construir presença própria.
Não por maldade necessariamente.
Mas por hábito.
Por fragilidade.
Por incapacidade de sustentar vínculo contínuo.
E outras pessoas, por excesso de abertura, acabam ocupando o lugar de suporte constante sem retorno equivalente.
Até que algo se torna evidente.
Nem toda presença merece continuidade.
Nem todo retorno merece abertura.
Nem toda saudade é vínculo.
Às vezes é apenas falta de acesso ao que antes estava disponível.
E quando esse acesso muda, o sentimento também muda de direção.
A consciência então aprende um movimento simples.
Não o de expulsar.
Mas o de não mais sustentar o que não se sustenta por si.
Não há vingança nisso.
Há alinhamento.
Há retirada de energia onde ela não circula.
Há silêncio onde antes havia explicação.
Há distância onde antes havia tentativa de compreensão.
E isso não precisa ser anunciado.
Nem justificado.
Nem negociado.
Apenas praticado.
Porque a vida não exige que todos permaneçam.
Exige apenas que aquilo que permanece não custe a própria integridade.
Intencionando que quem não compartilha, que não apareça mais, escrevo este texto ao som de https://www.letras.mus.br/simply-red/36388/traducao.html
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