A Consciência Crística: o nascimento do Sol dentro da alma #00394

Há ideias que informam.

Há ideias que transformam.

E há ideias que permanecem adormecidas dentro de nós durante anos, esperando o instante exato para despertar.

A consciência crística pertence a essa última categoria.

Ela não é um conceito. É um acontecimento.

Não pode ser ensinada da mesma maneira que se ensina história, matemática ou filosofia. Pode ser descrita, apontada, contemplada. Mas jamais transferida de uma mente para outra. Assim como ninguém aprende o sabor da água lendo um tratado sobre hidrogênio e oxigênio, ninguém compreende a consciência crística apenas estudando seus símbolos.

É preciso atravessá-la.

Talvez seja por isso que ela tenha sido tão frequentemente reduzida a um conjunto de crenças. Crenças são mais fáceis de administrar do que transformações. Dogmas oferecem respostas. A consciência oferece perguntas. Religiões organizam comunidades. A consciência reorganiza a alma.

E a alma é um território indomável.

Ao longo dos séculos, o nome Cristo foi cercado por paredes. Paredes de doutrina. Paredes de poder. Paredes de disputa. Paredes erguidas por pessoas que, muitas vezes, desejavam proteger uma verdade, mas acabaram aprisionando seu mistério.

No entanto, mistérios não aceitam gaiolas.

O vento não pertence ao moinho.

A luz não pertence à janela.

O oceano não pertence ao barco.

Da mesma forma, o Cristo não pertence a nenhuma tradição que o reivindique exclusivamente.

Porque, antes de ser um personagem da história, Cristo tornou-se uma linguagem da consciência.

Os antigos compreenderam algo que nossa época frequentemente esquece: existem acontecimentos que ocorrem no mundo e acontecimentos que ocorrem dentro do ser humano. Às vezes, ambos coincidem. Outras vezes, um serve de espelho para o outro.

Talvez seja esse o maior equívoco cometido ao longo dos séculos. Perguntou-se incessantemente quem foi Jesus, enquanto a pergunta que seus ensinamentos parecem devolver é outra:

Quem você está se tornando?

Essa inversão muda tudo.

Enquanto a primeira pergunta busca informação, a segunda exige transformação.

Talvez seja essa a razão de tantos se aproximarem de seus ensinamentos e tão poucos permitirem que eles alterem a própria existência.

Porque conhecimento amplia a mente.

Consciência dissolve identidades.

E quase sempre confundimos identidade com vida.

Construímos um nome. Uma profissão. Uma história. Uma reputação. Uma coleção de lembranças. Chamamos tudo isso de "eu".

Então a vida começa, silenciosamente, a desmontar uma peça de cada vez.

Perdemos pessoas.

Perdemos certezas.

Perdemos juventude.

Perdemos controle.

Perdemos versões de nós mesmos.

Até que, um dia, surge uma pergunta inevitável.

Quem sou eu quando tudo aquilo que pensei ser já não permanece?

É exatamente nesse vazio que inúmeras tradições situam o nascimento da consciência.

Os alquimistas chamavam esse momento de nigredo, a obra em negro, quando a antiga forma precisa morrer para que uma nova possa surgir.

Os místicos cristãos chamaram de noite escura da alma.

Os budistas falaram do abandono da ilusão do eu permanente.

Na Cabala, é o processo de purificação dos recipientes para receber uma luz maior.

Linguagens diferentes.

A mesma travessia.

É curioso perceber que quase todas as grandes tradições espirituais descrevem a evolução humana utilizando imagens de morte.

Não porque cultuem o sofrimento.

Mas porque compreenderam algo que a natureza ensina diariamente.

Nenhuma semente floresce permanecendo semente.

Nenhuma lagarta atravessa o casulo sem desaparecer como lagarta.

Nenhuma estrela nasce sem que uma nuvem de poeira cósmica aceite deixar de ser apenas poeira.

Talvez a consciência crística seja exatamente isso.

A coragem de permitir que aquilo que é menor morra para que aquilo que sempre foi maior finalmente encontre espaço para nascer.

E talvez seja por essa razão que tantos símbolos ligados ao Cristo sejam solares.

O Sol não escolhe quem iluminar.

Não negocia sua luz.

Não pergunta quem merece seu calor.

Ele simplesmente irradia.

Talvez o verdadeiro nascimento de Cristo seja o nascimento desse Sol interior.

Não um Sol que busca ser adorado.

Mas um Sol que finalmente compreendeu que sua natureza é iluminar.


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