A mulher que contava tudo


Ela tinha uma amiga para quem contava tudo.
Não porque a amiga perguntasse. Contava porque havia pessoas com quem a gente simplesmente abaixa a guarda.
Um dia, descobriu que uma história que havia contado numa terça-feira estava sendo discutida no sábado, na sala de outra pessoa, por gente que ela nunca tinha visto.
Não era exatamente uma traição. Era pior: era um hábito.
A amiga não entendia o problema.
“Mas eu só contei para ele.”
Ela percebeu então que havia passado anos escolhendo pessoas pela capacidade de ouvi-la, sem verificar se elas também sabiam guardar.
Naquela noite, escreveu uma frase:
Nem todo bom ouvinte é um bom guardião.
Depois acrescentou outra:
Intimidade não é quantidade de coisas que conto. É qualidade do lugar onde elas permanecem.
A partir daquele dia, continuou falando.
Só começou a escolher melhor onde deixava suas palavras.

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