A porta


Ela costumava deixar a porta aberta.
Metaforicamente, dizia.
Para as pessoas, para as histórias, para os pedidos, para as urgências.
Achava bonito ser acessível.
Até perceber que algumas pessoas não entravam.
Ocupavam.
Sentavam-se no meio da sala.
Mudavam os móveis.
Abriam gavetas.
E ainda perguntavam por que ela parecia diferente.
Um dia, alguém bateu.
Ela olhou pela janela.
Conhecia aquela pessoa.
Conhecia também o que acontecia depois que ela entrava.
Pela primeira vez, não abriu.
Não houve discurso.
Não houve briga.
Ela simplesmente deixou a porta fechada.
Depois pegou um caderno e escreveu:
Minha casa não é um teste de generosidade.
Pensou um pouco e completou:
A partir de agora, acesso será consequência de confiança, não recompensa por insistência.
Então guardou o caderno.
A casa continuou sendo dela.
E isso, descobriu, era uma coisa muito diferente de manter todas as portas abertas.

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