A síndica de porcaria nenhuma #00405


“Esta sala tem plantas demais.”

Disse a síndica de porcaria nenhuma.

Não era exatamente uma síndica. Não havia condomínio, assembleia, convenção, eleição, ata ou qualquer outro elemento que pudesse conferir legitimidade ao cargo. Mas havia nela uma coisa importante: convicção.

E a convicção, como sabemos, é frequentemente o último recurso de quem não possui autoridade.

Ela olhou para as plantas como quem inspeciona uma ocupação irregular.

“E esse lugar que você está era meu.”

Era.

Era mesmo?

Não! Nunca foi!

Mas o verbo no passado não a impede de reivindicá-lo num presente que só existe mesmo em sua mente. 

Há pessoas que desenvolvem uma relação muito criativa com a propriedade. 

Se um dia sentaram em uma cadeira, a cadeira passa a integrar seu patrimônio histórico.

Perguntei, então, por que ela não estava ocupando o lugar.

Foi quando surgiu a grande explicação.

Um dia ela trabalharia na Procuradoria-Geral.

Usaria salto alto.

Estaria entre os engravatados.

Tudo ficou claro.

A cadeira, portanto, não era apenas uma cadeira. Era uma espécie de reserva territorial para o futuro cargo que ainda não existia, exercido por uma versão futura dela mesma, devidamente paramentada para circular entre homens de terno.

Não se tratava de espaço.

Tratava-se de destino.

Eu, evidentemente, encontrava-me ali apenas por acidente histórico.

Há pessoas que não ocupam um lugar porque estão ocupadas demais imaginando o lugar que um dia ocuparão.

Enquanto isso, fiscalizam o lugar dos outros.

É uma modalidade curiosa de administração territorial: não construir, não ocupar, não assumir responsabilidade, não realizar o trabalho, mas manter uma espécie de direito feudal sobre aquilo que eventualmente poderá ser seu quando o universo reconhecer sua grandeza.

E é aí que começa o verdadeiro exercício de sobrevivência.

Porque existem ambientes em que você não precisa apenas trabalhar.

Precisa também sobreviver às fantasias de autoridade alheias.

Há quem confunda proximidade com poder.

Há quem confunda antiguidade com posse.

Há quem confunda opinião com norma.

Há quem confunda uma cadeira com um feudo.

E há quem precise de um salto alto e de alguns engravatados imaginários para sustentar uma hierarquia que ninguém mais está vendo.

O problema é que essas pessoas podem ser perigosas quando encontram pequenas frestas de poder.

Uma mesa.

Uma porta.

Uma chave.

Uma sala.

Uma planta.

Um café.

Qualquer coisa serve.

O território é irrelevante. O que importa é estabelecer que alguém manda.

E é nesse momento que precisamos tomar uma decisão civilizatória:

não perder o réu primário.

Porque certas situações exigem uma disciplina quase monástica.

Você respira.

Olha para a planta.

Olha para a pessoa.

Olha novamente para a planta.

E pensa:

“Não vou para a cadeia por causa disso.”

É assim que a civilização sobrevive.

Não por falta de vontade.

Por estratégia.

Você aprende que nem toda provocação merece resposta, nem toda invasão merece batalha, nem toda síndica de porcaria nenhuma precisa ser informada de que não é síndica de coisa alguma.

Algumas pessoas precisam continuar acreditando que são importantes.

Não porque sejam.

Mas porque, se descobrirem que não são, talvez precisemos reorganizar novamente a sala.

E ninguém merece uma segunda reforma.

Então deixamos a pessoa com seu futuro na Procuradoria-Geral, seus saltos imaginários, seus engravatados imaginários e sua cadeira histórica.

Enquanto isso, cuidamos das plantas.

Porque as plantas, ao contrário de certas autoridades autoproclamadas, pelo menos produzem oxigênio.

E, neste ambiente, isso já é uma contribuição institucional bastante relevante.

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