Autoridade da Vida #00393
Antes de desistir de si, fique do seu próprio lado
Há momentos em que a vida nos deixa tão cansados que começamos a abandonar a nós mesmos antes mesmo de perceber.
Paramos de defender nossos limites.
Paramos de dizer não.
Paramos de procurar ajuda.
Paramos de cuidar daquilo que precisa ser cuidado.
E, pouco a pouco, surge uma sensação perigosa: a de que tanto faz.
É justamente nesse momento que talvez seja necessário fazer uma coisa muito simples e muito radical:
ficar do seu próprio lado.
Não contra o mundo.
A seu favor.
Você é a primeira autoridade sobre a sua própria vida
Existe dentro de nós uma inteligência extraordinariamente antiga: a necessidade de permanecer vivos.
Nosso organismo passa o tempo inteiro tentando preservar aquilo que somos. Regula temperatura, pressão, energia, sono, cicatrização. Mobiliza mecanismos de defesa quando encontra ameaças. Procura equilíbrio mesmo quando nós sequer percebemos que alguma coisa está acontecendo.
Mas existe uma diferença entre o organismo lutar pela sobrevivência e nós colaborarmos conscientemente com ele.
Quando estamos deprimidos, exaustos ou atravessando um período de fragilidade física, podemos começar a agir como se nossa própria existência fosse um detalhe.
E é aí que precisamos assumir uma posição.
"Eu estou aqui. Eu sou responsável por proteger esta vida."
Não precisamos sentir vontade.
Não precisamos estar motivados.
Não precisamos acreditar que tudo vai melhorar.
Às vezes, basta tomar uma decisão pequena:
Hoje eu não vou me abandonar.
Defender-se não é lutar contra todos
Existe uma ideia equivocada de força segundo a qual ser forte significa suportar tudo.
Não.
Às vezes, a forma mais sofisticada de força é interromper aquilo que está nos destruindo.
É dizer:
"Não."
"Isso não me faz bem."
"Não vou continuar nessa situação."
"Preciso de ajuda."
"Preciso descansar."
"Preciso procurar um médico."
"Preciso me afastar dessa pessoa."
"Não vou permitir que você fale comigo dessa maneira."
Defender-se é estabelecer uma fronteira entre aquilo que pode entrar na nossa vida e aquilo que precisa permanecer do lado de fora.
E essa fronteira não existe apenas para proteger nossa mente.
Ela também comunica alguma coisa para nós mesmos.
Quando você se defende, você está dizendo ao seu próprio organismo:
"Há alguém aqui cuidando de você."
O corpo precisa saber que não foi abandonado
Talvez essa seja uma das imagens mais importantes desta reflexão.
Imagine seu corpo como uma cidade.
Há ruas, casas, sistemas de abastecimento, centros de comunicação, estruturas de defesa. Tudo funciona para manter aquela cidade viva.
Agora imagine que, no centro dela, existe uma autoridade.
Alguém que observa, organiza recursos, identifica ameaças e decide:
"Isto entra. Isto não entra. Isto precisa ser reparado. Isto precisa ser interrompido. Aqui precisamos pedir ajuda."
Essa autoridade é a nossa capacidade de cuidado, discernimento e ação.
Não controlamos tudo o que acontece com o corpo.
Não escolhemos todas as doenças.
Não escolhemos a depressão.
Não escolhemos uma infecção, uma alteração imunológica ou qualquer outra condição de saúde.
Mas podemos, dentro dos limites que temos, assumir uma posição:
não vou colaborar com aquilo que me destrói.
Vou procurar tratamento.
Vou descansar quando necessário.
Vou comer o que conseguir de maneira adequada.
Vou tomar a medicação prescrita.
Vou pedir ajuda.
Vou me afastar do que me faz mal.
Vou voltar a fazer pequenas coisas que sustentam minha vida.
Não porque eu tenha obrigação de ser forte.
Mas porque minha vida merece uma defesa.
Quando você está deprimido
A depressão pode distorcer uma coisa fundamental: nossa percepção do próprio valor.
O pensamento pode dizer:
"Não adianta."
"Não vou conseguir."
"Não quero mais."
"Nada vai mudar."
E quando estamos muito fragilizados, esses pensamentos podem parecer fatos.
Mas pensamento não é sentença.
Você não precisa resolver a sua vida inteira hoje.
Talvez a tarefa seja muito menor.
Levantar.
Tomar banho.
Comer alguma coisa.
Abrir a janela.
Tomar o medicamento prescrito.
Responder uma mensagem.
Marcar uma consulta.
Contar a alguém que você não está bem.
Dormir.
Amanhã, repetir.
Isso pode parecer pouco.
Não é.
É manutenção da vida.
Em determinadas fases, sobreviver é uma tarefa suficientemente importante.
A autoridade também sabe pedir reforços
Nenhuma cidade funciona com uma única pessoa fazendo tudo.
Nenhum sistema de defesa é autossuficiente.
E nós também não somos.
Pedir ajuda não significa entregar o comando da própria vida.
Significa reconhecer que determinados problemas exigem mais recursos.
Um psicólogo pode ajudar.
Um psiquiatra pode ajudar.
Um médico pode ajudar.
Um familiar pode ajudar.
Um amigo pode ajudar.
Uma rede de apoio pode ajudar.
E, quando necessário, serviços de emergência podem ajudar.
A autoridade sobre a sua vida não desaparece porque você precisou de reforços.
Pelo contrário.
Uma autoridade competente sabe quando pedir ajuda.
Não entregue os pontos em um dia ruim
Há uma regra que pode ser útil:
não tome decisões definitivas durante estados emocionais transitórios.
Um dia terrível não é necessariamente uma vida terrível.
Uma semana de exaustão não define o restante da existência.
Uma fase de doença não determina quem você será depois dela.
Uma perda não é a totalidade da sua história.
Quando tudo parecer sem saída, reduza o horizonte.
Não pense:
"Como vou viver pelos próximos vinte anos?"
Pense:
"O que preciso fazer para atravessar hoje?"
Depois:
"O que preciso fazer para chegar amanhã?"
É assim que algumas travessias acontecem.
Não com grandes discursos.
Com pequenos atos sucessivos de permanência.
E quando você estiver fraco demais para acreditar em si?
Então empreste sua confiança a alguém.
Permita que outra pessoa fique ao seu lado.
Permita que alguém marque a consulta.
Permita que alguém acompanhe você.
Permita que alguém prepare uma refeição.
Permita que alguém fique perto.
Mas não confunda receber ajuda com desistir de si.
Você pode estar exausto e ainda assim estar escolhendo viver.
Pode estar sem esperança e ainda assim aceitar tratamento.
Pode não enxergar uma saída e ainda assim dar o próximo passo.
Esperança não precisa vir antes da ação.
Às vezes, a ação vem primeiro.
A esperança chega depois.
O compromisso
Talvez o Ho'oponopono possa ganhar uma dimensão diferente aqui.
Não apenas:
"Sinto muito.
Me perdoe.
Eu te amo.
Sou grata."
Mas também:
"Eu estou aqui."
"Eu não vou me abandonar."
"Eu vou proteger você enquanto você atravessa isso."
"Vou procurar ajuda quando não conseguir sozinho."
"Vou respeitar seus limites."
"Vou afastar aquilo que puder ser afastado."
"Vou tratar aquilo que puder ser tratado."
"Vou esperar os dias difíceis passarem sem transformar um dia difícil em uma sentença definitiva."
E talvez seja esse o verdadeiro empoderamento.
Não a fantasia de que somos invulneráveis.
É saber que somos vulneráveis e, ainda assim, assumir responsabilidade pela proteção da nossa própria presença no mundo.
Porque haverá momentos em que outras pessoas não perceberão o que estamos atravessando.
Haverá pessoas que não entenderão.
Haverá ambientes que não serão seguros.
Haverá injustiças que não poderemos corrigir.
Haverá doenças que não poderemos simplesmente decidir abandonar.
Mas existe uma coisa que podemos começar a fazer:
ficar do nosso próprio lado.
Não precisamos prometer que nunca mais vamos cair.
Precisamos apenas estabelecer uma autoridade interna que diga:
"Se você cair, eu vou ajudar a levantar."
"Se você adoecer, eu vou procurar tratamento."
"Se você for ferido, eu vou proteger suas fronteiras."
"Se você estiver cansado, eu vou permitir descanso."
"Se você não conseguir sozinho, eu vou buscar ajuda."
"E enquanto houver alguma coisa que eu possa fazer, eu não vou abandonar você."
Talvez o primeiro gesto de amor próprio não seja amar a si mesmo.
Talvez seja muito mais simples:
defender a própria existência.
Ficar.
Cuidar.
Pedir ajuda.
Colocar limites.
Tratar o que precisa ser tratado.
E atravessar mais um dia.
Porque, às vezes, antes de acreditar que a vida pode ser maravilhosa, precisamos apenas permitir que ela continue sendo possível.
Só Hoje, fique do seu próprio lado!
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