Do que é feito um dia adorável? #00408


Um dia adorável, o dia inteiro, é feito de quê?

Talvez não seja feito de acontecimentos extraordinários. 

Talvez seja justamente o contrário. 

Um dia adorável é feito de coisas tão pequenas que, separadamente, quase passam despercebidas.

De acordar sem precisar travar uma guerra com a manhã.

Do café que tem exatamente o gosto que o café deveria ter. 

Da luz do sol encontrando uma fresta na janela. 

De uma conversa que não exige nada de você e, ainda assim, deixa alguma coisa boa.

É feito de pequenas vitórias que ninguém aplaude. 

Um espaço colocado em ordem. 

Uma mensagem que chega no momento certo. 

Uma música que você havia esquecido e que, de repente, devolve uma versão antiga de você mesma. 

Uma risada que escapa antes que seja possível contê-la.

Um dia adorável também é feito de pausas que não parecem vazias. 

De trabalho que não devora a pessoa inteira. 

De gente diante da qual não é preciso estar o tempo todo em desempenho, produzindo uma versão aceitável de si mesma.

É feito daqueles instantes em que você se lembra de que estar viva não precisa ser, o tempo inteiro, um problema a resolver.

E talvez esteja aí o segredo.

Um dia adorável não é um dia de felicidade ininterrupta. 

Isso, convenhamos, seria um tanto suspeito. 

Todo dia tem suas asperezas, seus pequenos incômodos, suas notícias atravessadas, suas horas menos brilhantes.

Mas um dia adorável tem beleza suficiente para que você queira voltar a ele.

E, às vezes, isso basta.

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