Glória e Laura #00404


Glória e Laura foram embora no mesmo dia. Ontem, 18 de agosto de 2026.

Uma tinha 91 anos. A outra, 98.

Talvez tenham combinado. Talvez, depois de quase um século de travessia, tenham decidido que já era hora de descansar o corpo e acordar do outro lado. Gosto de imaginar que chegaram vivas e alegres, sem pressa, e encontraram aqueles que haviam partido antes delas.

Duas mulheres belíssimas na juventude.

E talvez seja justamente aí que esteja uma parte importante da história.

Porque uma mulher pode passar a vida inteira sendo ensinada a temer o tempo.

Temer a primeira ruga.
O primeiro fio branco.
A pele que perde firmeza.
A barriga que muda.
Os seios que descem.
O rosto que deixa de obedecer ao desenho da juventude.

Ensinaram-nos que envelhecer é perder.

Perder beleza.
Perder valor.
Perder desejo.
Perder lugar.

A indústria da beleza construiu uma ideia particularmente cruel: a mulher deveria passar a vida tentando parecer que ainda não viveu.

Como se cada marca do corpo fosse uma denúncia.

Como se o tempo tivesse cometido um erro sobre nós.

Glória e Laura, porém, chegaram aos 91 e aos 98 anos.

Não derrotaram o tempo. Ninguém derrota.

Fizeram algo muito mais radical: viveram através dele.

Seus corpos mudaram. Seus rostos mudaram. Seus cabelos mudaram. Elas conheceram as diferentes mulheres que existiram dentro delas. E, em cada etapa, precisaram negociar com um mundo que insistia em dizer que a mulher deveria permanecer jovem para continuar sendo vista.

Mas elas chegaram.

Chegaram à velhice.

E isso, para uma mulher, ainda é um gesto profundamente político.

Porque há uma sociedade que lucra quando odiamos nossos corpos. Que transforma insegurança em produto, medo em procedimento, envelhecimento em defeito e juventude em obrigação.

Contra isso, há algo silenciosamente revolucionário em uma mulher que simplesmente envelhece.

Uma mulher que deixa o tempo passar pelo rosto.

Que permite que o corpo conte sua própria história.

Que não precisa parecer ter trinta anos aos cinquenta, nem cinquenta aos setenta, nem jovem aos noventa.

Uma mulher que não pede desculpas por ter vivido.

Glória e Laura foram lindas jovens.

Mas não é a juventude delas que quero celebrar.

Quero celebrar as mulheres que elas se tornaram.

As mulheres de 91 e 98 anos.

As mulheres que atravessaram décadas, mudanças, perdas, alegrias, amores, trabalhos, despedidas, transformações. Mulheres cujos corpos não eram objetos em exposição, mas lugares onde a vida aconteceu.

Talvez seja essa a verdadeira afronta à tirania da beleza:

não conservar a aparência de uma vida que já passou, mas ter coragem de deixar o corpo testemunhar que ela aconteceu.

Hoje, imagino Glória e Laura descansando.

E gosto de pensar que, finalmente, estão em um lugar onde ninguém lhes pergunta a idade.

Ninguém lhes pede que pareçam jovens.

Ninguém lhes oferece um espelho para apontar o que precisa ser corrigido.

Ninguém lhes diz como uma mulher deveria ser bonita.

Elas simplesmente são.

Inteiras.

Livres.

E, quem sabe, rindo juntas da nossa estranha obsessão de querer impedir que o tempo faça exatamente aquilo que ele veio fazer:

nos transformar em história.

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