Ho'oponopono para perdoar: quando é preciso deixar ir #00392


Há coisas que terminam, mas continuam vivendo dentro de nós.

Uma conversa que não conseguimos esquecer. Uma injustiça que ainda nos revolta. Uma pessoa que nos feriu e seguiu a própria vida enquanto nós permanecemos reconstruindo mentalmente o que aconteceu. Uma culpa antiga. Uma escolha da qual nos arrependemos. Uma palavra que gostaríamos de nunca ter dito. Uma palavra que alguém disse e que, anos depois, ainda dói.

Carregamos pessoas, situações e versões antigas de nós mesmas como quem carrega objetos dentro de uma casa que já não precisa deles.

É nesse território que uma prática como o Ho'oponopono pode ser utilizada como um exercício de reconciliação interior.

Sua fórmula tradicional é simples:

Sinto muito.
Me perdoe.
Eu te amo.
Sou grata.

Mas a simplicidade das palavras não significa que o processo seja superficial.

Quando repetimos essas frases conscientemente, podemos utilizá-las como uma maneira de olhar para aquilo que ainda nos prende e começar a soltá-lo.

O que significa deixar ir?

Deixar ir não é dizer que aquilo que aconteceu foi certo.

Não é declarar que uma injustiça deixou de ser injustiça.

Não é voltar a confiar em quem destruiu nossa confiança.

Não é permitir novamente a entrada de alguém que nos fez mal.

E tampouco significa assumir responsabilidade por aquilo que outra pessoa fez.

Perdoar não transforma o errado em certo.

Às vezes, perdoar significa justamente reconhecer com clareza:

"Isso aconteceu. Foi doloroso. Não quero que aconteça novamente. Aprendi o que precisava aprender. E não vou continuar carregando isso comigo."

Há uma diferença enorme entre lembrar e permanecer preso.

Podemos nos lembrar de uma pessoa sem continuar emocionalmente ligados a ela. Podemos reconhecer uma ferida sem continuar vivendo a partir dela. Podemos aprender com um erro sem transformar aquele erro na nossa identidade.

Deixar ir é permitir que o passado ocupe seu devido lugar: o passado.

Como fazer Ho'oponopono para o autoperdão

Comece por você.

Escolha algo pelo qual ainda se culpa.

Pode ser uma decisão equivocada, uma oportunidade perdida, uma relação que você permitiu durar mais do que deveria, algo que fez ou deixou de fazer.

Feche os olhos e imagine a pessoa que você era naquele momento.

Não tente defendê-la.

Não tente condená-la.

Apenas olhe para ela.

Então diga lentamente:

Sinto muito.

Não como uma acusação, mas como reconhecimento da dor.

"Sinto muito por tudo aquilo que fiz contra mim mesma. Sinto muito pelas vezes em que ignorei meus limites, aceitei menos do que merecia, permaneci onde já não deveria estar ou me abandonei para agradar outras pessoas."

Depois:

Me perdoe.

E permita que essa frase seja dirigida a você.

"Eu me perdoo por não ter sabido naquela época o que sei hoje. Eu me perdoo pelas escolhas que fiz quando tinha menos consciência, menos experiência e menos recursos para agir de outra maneira."

Então:

Eu te amo.

Talvez essa seja a parte mais difícil.

Diga isso à pessoa que você foi.

"Eu não vou mais te tratar como inimiga por causa dos seus erros. Você também estava tentando sobreviver, compreender, acertar."

Por fim:

Sou grata.

Não necessariamente pelo sofrimento.

Mas pelo aprendizado que você conseguiu retirar dele.

"Sou grata por ter chegado até aqui. Sou grata pelo que compreendi. Sou grata pela possibilidade de fazer diferente daqui para frente."

Para perdoar alguém que nos feriu

Aqui é importante mudar o foco.

Você não precisa imaginar que ama aquela pessoa.

Nem precisa desejar sua presença novamente.

O exercício pode ser simplesmente reconhecer que você não quer mais continuar emocionalmente acorrentada ao que ela fez.

Pense nessa pessoa e diga:

Sinto muito.

"Sinto muito por toda a dor que essa história provocou em mim."

Me perdoe.

"Perdoo a mim mesma por ter permanecido tanto tempo presa a essa história, por ter esperado explicações que talvez nunca viessem, por ter desejado uma reparação que talvez nunca acontecesse."

Eu te amo.

Aqui, você pode compreender essa frase de maneira mais ampla.

Não significa necessariamente "quero você na minha vida".

Pode significar:

"Reconheço que você faz parte da minha história, mas não precisa mais determinar o meu futuro."

E então:

Sou grata.

"Sou grata pelo que aprendi sobre meus limites, minhas escolhas, minhas necessidades e sobre aquilo que nunca mais aceitarei."

E, finalmente:

Eu deixo você ir.

Essa última frase não pertence à fórmula tradicional, mas pode funcionar como uma declaração consciente de encerramento:

"Eu devolvo a você aquilo que pertence a você. Fico com aquilo que pertence a mim. A responsabilidade pelas suas escolhas é sua. A responsabilidade pela minha vida é minha."

Para perdoar uma situação

Nem sempre existe uma pessoa específica.

Às vezes queremos perdoar um período inteiro da vida.

Uma demissão. Uma doença. Uma separação. Uma mudança que não queríamos. Uma oportunidade perdida. Um projeto que fracassou. Um período de solidão.

Nesse caso, podemos dizer:

"Sinto muito por tudo que essa experiência despertou em mim.

Me perdoe por todas as vezes em que transformei essa experiência em uma sentença sobre quem eu sou.

Eu te amo, parte de mim que atravessou tudo isso.

Sou grata pelo que aprendi.

Agora permito que essa história termine dentro de mim.

Não preciso continuar sofrendo para provar que aquilo foi importante."

Essa última frase merece ser guardada.

Não precisamos continuar sofrendo para provar que fomos feridos.

Para perdoar alguém que nunca pediu perdão

Talvez esta seja uma das situações mais difíceis.

Porque esperamos que o outro reconheça o que fez.

Esperamos um pedido de desculpas, uma explicação, uma reparação.

Às vezes ela nunca vem.

E existe uma armadilha aí: colocar nossa paz nas mãos de alguém que já demonstrou não saber cuidar dela.

O Ho'oponopono pode ser utilizado como uma forma simbólica de retirar essa dependência.

Você pode dizer:

"Eu não preciso que você reconheça minha dor para que ela seja real.

Não preciso que você admita seu erro para que eu possa seguir em frente.

Não preciso receber de você o encerramento que posso construir dentro de mim.

Sinto muito.

Me perdoe.

Eu te amo.

Sou grata.

E agora eu deixo você ir."

E quando fomos nós que ferimos alguém?

O autoperdão não deve virar uma maneira elegante de fugir da responsabilidade.

Se fizemos mal a alguém, quando for possível e apropriado, devemos reparar o que puder ser reparado.

Pedir desculpas.

Reconhecer o erro.

Restituir.

Mudar o comportamento.

Aceitar que talvez a outra pessoa não queira nos perdoar.

Depois disso, podemos trabalhar o perdão de nós mesmas.

"Sinto muito pelo que fiz.

Me perdoe por ter agido daquela maneira.

Eu me comprometo a não repetir esse padrão.

Eu te amo o suficiente para não continuar transformando um erro em uma condenação permanente.

Sou grata pelo aprendizado.

O verdadeiro autoperdão não diz:

"Eu não fiz nada de errado."

Ele diz:

"Eu fiz algo errado, reconheço, reparo o que puder e não preciso permanecer eternamente sendo aquela pessoa."

Para deixar ir várias pessoas

Você também pode fazer uma prática mais ampla.

Imagine diante de você todas as pessoas que, de alguma maneira, ainda ocupam espaço dentro da sua mente.

Pessoas que você ama.

Pessoas que perdeu.

Pessoas que decepcionaram você.

Pessoas que você decepcionou.

Pessoas que foram injustas.

Pessoas que você gostaria de esquecer.

E até versões antigas de você mesma.

Não é necessário conversar mentalmente com cada uma.

Apenas reconheça:

"Eu libero vocês da função de continuar participando da minha vida interior.

Libero o que não posso mudar.

Libero as explicações que nunca recebi.

Libero as conversas que nunca aconteceram.

Libero a necessidade de que o passado seja diferente.

Fico com o aprendizado.

Fico com minha dignidade.

Fico com minha história.

E devolvo o restante ao tempo."

Depois, repita:

Sinto muito.
Me perdoe.
Eu te amo.
Sou grata.

Respire.

E deixe o silêncio fazer parte da prática.

O que estamos realmente soltando?

Talvez não estejamos soltando a pessoa.

Talvez estejamos soltando a expectativa de que ela se torne quem gostaríamos que tivesse sido.

Talvez não estejamos soltando o acontecimento.

Talvez estejamos soltando a necessidade de reescrevê-lo mentalmente todos os dias.

Talvez não estejamos esquecendo a ferida.

Talvez estejamos deixando de alimentá-la.

Porque algumas pessoas deixam nossa vida, mas continuam ocupando nossa cabeça.

Algumas relações terminam, mas continuam acontecendo dentro de nós.

Algumas injustiças acabam no mundo externo, mas permanecem sendo repetidas internamente durante anos.

É aí que precisamos interromper o ciclo.

Não para dizer que não doeu.

Do contrário.

Justamente porque doeu, não precisamos continuar carregando a dor como prova de que aquilo aconteceu.

Um ritual simples para encerrar

Reserve alguns minutos.

Acenda uma vela, se isso fizer sentido para você, ou simplesmente sente-se em silêncio.

Escolha uma pessoa, situação ou lembrança.

Respire profundamente.

Diga:

Sinto muito.
Me perdoe.
Eu te amo.
Sou grata.

Depois acrescente:

"Eu reconheço o que aconteceu.

Aceito que não posso mudar o passado.

Aceito que algumas respostas talvez nunca venham.

Aceito que algumas pessoas nunca reconhecerão o que fizeram.

Eu não preciso carregar isso para sempre.

Eu libero você.

Eu libero essa história.

Eu libero a versão de mim que precisou sobreviver a isso.

E escolho voltar para a minha própria vida."

Então respire novamente.

Não procure uma sensação extraordinária.

O perdão raramente acontece como um raio.

Às vezes ele acontece de maneira quase imperceptível.

Um dia você lembra e percebe que já não sente a mesma necessidade de explicar.

Outro dia percebe que não precisa mais imaginar o que teria acontecido se.

Depois percebe que aquela pessoa já não ocupa tanto espaço.

E, finalmente, chega um momento em que a lembrança permanece, mas a prisão desapareceu.

Talvez seja isso que significa deixar ir.

Não apagar a história.

Parar de morar nela.

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