O código que ninguém vê
Ontem ouvi falar sobre os samurais.
Não sobre as espadas, nem sobre as batalhas. Foi sobre o código.
Achei curioso pensar que alguém pudesse escrever, para si mesmo, uma espécie de mapa de conduta. Não exatamente um manual sobre como vencer os outros, mas sobre como não se perder de si mesmo enquanto atravessa o mundo.
Fiquei pensando nisso por muito tempo.
Talvez porque, depois de certa idade, a gente perceba que algumas das nossas maiores batalhas não acontecem diante de um inimigo.
Acontecem quando alguém ultrapassa um limite e nós não sabemos se devemos falar.
Quando alguém nos decepciona e nós inventamos uma desculpa para continuar confiando.
Quando contamos alguma coisa em segredo e descobrimos, depois, que ela ganhou outras bocas, outros ouvidos, outras interpretações.
Quando dizemos “não tem problema” apenas porque não queremos criar um problema.
E, principalmente, quando fazemos conosco aquilo que juramos que ninguém mais deveria fazer.
Foi então que pensei que talvez eu também precisasse de um código.
Não um código para os outros.
Um código para mim.
Algumas coisas eu não permitirei mais que façam comigo.
Não permitirei que minha intimidade seja tratada como conversa pública.
Não aceitarei que aquilo que entreguei em confiança seja levado adiante sem que me perguntem.
Não aceitarei que o desrespeito seja chamado de espontaneidade, que a invasão seja chamada de intimidade ou que a minha tolerância seja interpretada como autorização.
Mas meu código não poderia ser apenas uma lista de coisas que os outros não deveriam fazer.
Seria fácil demais.
Eu também precisaria escrever aquilo que não faria.
Não repetiria uma confidência.
Não colocaria outra pessoa no centro de uma conversa que não lhe pertence.
Não usaria a fragilidade de alguém como moeda numa discussão.
Não diria, no calor da raiva, aquilo que depois precisaria ser desdito.
Não prometerei o que não posso cumprir.
Não ficarei onde preciso desaparecer para ser aceita.
E descobri uma coisa curiosa enquanto escrevia.
Meu código não estava ficando mais duro.
Estava ficando mais silencioso.
Talvez maturidade tenha alguma coisa a ver com isso.
A gente passa boa parte da vida imaginando que estabelecer limites significa levantar a voz, bater portas, fazer discursos memoráveis.
Às vezes significa apenas mudar o que fazemos.
Se alguém não sabe guardar determinada parte da nossa vida, deixamos de entregar aquela parte.
Se alguém não respeita um não, paramos de negociar.
Se uma relação exige que nos diminuamos continuamente para continuar existindo, talvez o problema não seja encontrar uma maneira melhor de caber nela.
Talvez seja parar de tentar caber.
Há também uma regra que quero guardar com cuidado:
não preciso controlar o comportamento dos outros. Preciso controlar o acesso que concedo a eles.
Isso muda tudo.
Porque o mundo continuará sendo o mundo.
As pessoas continuarão falando demais, entendendo de menos, confundindo intimidade com posse, liberdade com invasão, sinceridade com licença para ferir.
Eu não tenho como impedir.
Mas posso escolher o que entrego.
Posso escolher a quem conto.
Posso escolher quando saio.
Posso escolher quando permaneço em silêncio.
E posso escolher não me abandonar apenas para que uma relação continue confortável para outra pessoa.
Talvez seja esse o meu código.
Não uma armadura.
Não uma espada.
Não uma promessa de nunca mais ser ferida.
Apenas algumas palavras discretas, guardadas em algum lugar onde ninguém precisa vê-las.
Para que, quando eu estiver prestes a fazer algo contra mim mesma em nome de outra pessoa, eu possa lê-las e lembrar:
eu também sou alguém de quem devo cuidar.
E talvez essa seja a primeira regra de qualquer código que valha a pena seguir.
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