O peso exato de um abraço #00391
Passei meses acreditando que algumas dores não encontrariam tradução.
Há sofrimentos que não nascem do excesso de trabalho, mas da injustiça. Da incompetência travestida de autoridade. Da sensação de que quem deveria proteger foi justamente quem feriu. Não são dores barulhentas. São aquelas que se instalam devagar, roubando a confiança, a espontaneidade e até a alegria de chegar aos lugares.
Às vezes, a vida nos tira de um ambiente não porque fracassamos, mas porque permanecer nele custaria partes demais de nós.
Foi assim que atravessei esse tempo.
Até que hoje aconteceu algo pequeno para quem olhava de fora.
Recebi um abraço.
Não um abraço protocolar. Nem daqueles distribuídos por educação.
Recebi um abraço que parecia dizer, sem uma única palavra: "Eu vejo o que você atravessou."
Há um tipo de acolhimento que não tenta explicar a dor, nem oferecer soluções. Apenas reconhece a existência dela. E esse reconhecimento, curiosamente, devolve um pouco da nossa própria existência.
Percebi, naquele instante, que meses de dureza não haviam conseguido destruir uma coisa essencial: a capacidade humana de oferecer refúgio uns aos outros.
Nem sempre serão grandes discursos que nos salvarão dos dias difíceis.
Às vezes, será alguém que percebe o peso que carregamos e, por alguns segundos, decide carregá-lo conosco.
Não para resolvê-lo.
Mas para que não precisemos sustentá-lo sozinhos.
Vivemos num tempo em que se fala muito sobre produtividade, desempenho e resultados. Pouco se fala sobre o valor silencioso de quem escolhe ser abrigo.
Hoje fui lembrada de que ainda existem pessoas assim.
Pessoas que, sem saber, devolvem o eixo de alguém apenas por estarem inteiras no gesto que oferecem.
Talvez ela nunca imagine a importância daquele abraço.
Talvez pense que foi apenas um cumprimento afetuoso.
Mas alguns gestos não medem sua grandeza pelo tempo que duram.
Medem-se pelo lugar em que encontram quem os recebe.
E hoje, sem saber, alguém encontrou um lugar em mim que já estava cansado de resistir sozinho.
Há abraços que terminam quando os braços se soltam.
E há abraços que continuam sustentando a alma muito depois que o corpo volta a caminhar.
Este foi um deles.
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