A idade em que descobrimos a nossa força #00445


Existe uma idade em que descobrimos que nossas palavras têm efeito.

Até então, podemos falar.

Podemos desejar.

Podemos fazer perguntas.

Podemos provocar.

Mas ainda não sabemos exatamente o que acontece no outro lado.

Então descobrimos.

Uma frase muda o rosto de alguém.

Uma pergunta desmonta uma certeza.

Uma presença incomoda.

Um gesto provoca.

E percebemos, talvez pela primeira vez, que não somos apenas espectadores da vida.

Também interferimos nela.

Em Os desastres de Sofia, Clarice Lispector escreve sobre uma menina que ainda não sabe muito bem o que fazer com aquilo que começa a descobrir em si mesma. Sofia é inteligente, provocadora, contraditória. Ela observa, testa limites, inventa, deseja e, muitas vezes, não entende inteiramente o alcance daquilo que faz.

É justamente aí que a personagem se torna interessante.

Porque crescer não é apenas aprender regras.

É descobrir que temos poder.

E poder é uma coisa complicada.

Uma criança percebe primeiro de maneira quase experimental.

Se eu disser isso, o que acontece?

Se eu fizer aquilo?

Se eu contrariar?

Se eu não obedecer?

Se eu falar?

A descoberta pode ser fascinante.

Também pode ser perigosa.

Porque existe uma diferença entre ter força e saber o que fazer com ela.

Os adultos costumam ensinar muito sobre controle.

Controle da voz.

Do corpo.

Da raiva.

Da vontade.

Da curiosidade.

Da sexualidade.

Da ambição.

Principalmente às meninas, muitas vezes se ensina uma forma muito específica de contenção: não incomode, não exagere, não responda, não seja difícil, não queira demais.

Seja agradável.

Seja educada.

Seja compreensiva.

Seja uma boa menina.

E então chega um momento em que essa menina percebe uma coisa desconcertante:

ela tem vontade própria.

Pode dizer não.

Pode discordar.

Pode desejar.

Pode criar.

Pode ferir.

Pode encantar.

Pode transformar uma situação apenas abrindo a boca.

É uma descoberta importante.

Mas não é ainda maturidade.

Maturidade vem depois.

Vem quando percebemos que nossa força não existe apenas para provar que somos fortes.

Existe também responsabilidade.

É possível ter uma voz sem precisar gritar.

É possível discordar sem destruir.

É possível perceber o efeito que produzimos sem passar a viver calculando cada movimento.

É possível ser livre sem transformar liberdade em crueldade.

Talvez seja essa a passagem mais difícil.

Primeiro descobrimos:

eu posso.

Depois precisamos aprender:

o que faço com o fato de poder?

Essa segunda pergunta demora mais.

Em setembro, ela ganha uma tonalidade interessante.

Porque já atravessamos uma parte considerável do ano e talvez possamos olhar para nossas próprias ações com menos ingenuidade.

Onde fomos fortes?

Onde fomos apenas reativos?

Onde confundimos coragem com agressividade?

Onde confundimos gentileza com medo?

Onde deixamos de falar quando deveríamos ter falado?

E onde falamos apenas para não suportar a sensação de sermos contrariados?

A força adulta não é a ausência de conflito.

É a capacidade de permanecer inteira dentro dele.

Isso exige mais do que coragem.

Exige consciência.

A menina de Clarice ainda está descobrindo.

E talvez seja por isso que ela seja tão interessante.

Ela não é uma personagem domesticada para agradar o leitor.

Ela erra.

Provoca.

Deseja.

Tem contradições.

Não cabe facilmente numa categoria.

E há algo de profundamente vivo nisso.

Porque talvez uma parte do amadurecimento seja justamente parar de exigir que as pessoas sejam fáceis de compreender.

Inclusive nós mesmos.

Durante muito tempo, queremos construir uma versão coerente de quem somos.

Depois descobrimos que a coerência absoluta pode ser apenas outra forma de prisão.

Podemos ser generosos e egoístas.

Corajosos e medrosos.

Lúcidos e confusos.

Delicados e furiosos.

Podemos querer liberdade e, ao mesmo tempo, ter medo dela.

Não precisamos gostar de todas essas partes.

Mas precisamos conhecê-las.

Porque aquilo que desconhecemos em nós tende a aparecer de maneira mais desastrada.

Talvez seja isso que o título de Clarice nos permita pensar.

Os desastres também ensinam.

Nem todo erro é um desastre.

Nem toda transgressão é coragem.

Nem toda obediência é virtude.

Há coisas que só aprendemos depois de ultrapassar uma fronteira e perceber que ela existia.

Crescer é descobrir limites.

Mas também descobrir quais deles eram necessários e quais foram apenas herdados.

No começo, a força parece ser a capacidade de fazer o que queremos.

Depois entendemos que existe uma força maior:

poder fazer e ainda assim escolher.

Poder responder e escolher o silêncio.

Poder partir e decidir ficar.

Poder atacar e não atacar.

Poder agradar e não precisar.

Poder ser vista sem se oferecer inteira ao olhar dos outros.

Talvez essa seja uma das grandes passagens para a maturidade.

Não deixar de ter força.

Aprender a governá-la.

Porque há uma diferença enorme entre uma pessoa que não pode e uma pessoa que pode, mas sabe escolher.

A primeira está presa.

A segunda está começando a ser livre.

E talvez setembro seja um bom lugar para perceber isso.

O ano ainda não acabou.

Nós também não.

Ainda há tempo para descobrir não apenas do que somos capazes, mas principalmente quem queremos ser quando descobrimos que somos capazes de muito mais do que imaginávamos.

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