A vida que ninguém estava olhando #00446

 

Existe uma forma silenciosa de desaparecer.

Continuar vivendo.

Acordar.

Trabalhar.

Conversar.

Pagar contas.

Responder mensagens.

Cumprir obrigações.

E, ainda assim, passar pela própria vida quase sem ser percebida por ninguém.

Em A hora da estrela, Clarice Lispector coloca no centro da narrativa uma personagem que parece existir à margem de quase tudo.

Macabéa não ocupa muito espaço.

Não sabe exigir.

Não sabe se defender particularmente bem.

Não parece ter aprendido a transformar a própria presença em importância.

Ela atravessa o mundo quase sem deixar marcas.

E talvez seja justamente por isso que sua existência incomode tanto.

Porque estamos acostumados a acreditar que uma vida precisa ser extraordinária para merecer atenção.

Precisamos de grandes histórias.

Grandes dores.

Grandes conquistas.

Grandes amores.

Grandes fracassos.

Macabéa não oferece nada disso.

Ela simplesmente existe.

E isso basta para que Clarice faça uma pergunta muito mais incômoda:

quem decidiu quais vidas merecem ser vistas?

Há pessoas que aprendem desde cedo a ocupar espaço.

Falam.

Pedem.

Reclamam.

Negociam.

Dizem não.

Fazem questão.

Outras aprendem o contrário.

Aprendem a não incomodar.

A esperar.

A aceitar.

A desaparecer um pouco para que os outros possam continuar confortáveis.

Talvez a invisibilidade não seja apenas uma característica.

Às vezes, é uma educação.

A pessoa aprende que suas necessidades podem esperar.

Que sua opinião talvez não seja tão importante.

Que é melhor não criar problemas.

Que alguém mais merece primeiro.

Até que, depois de muitos anos, ela já não sabe mais distinguir humildade de apagamento.

E existe uma diferença enorme entre não precisar ser o centro e não acreditar que se tem direito a ocupar um lugar.

A primeira é liberdade.

A segunda é desaparecimento.

Talvez setembro seja um mês interessante para pensar nisso.

Porque chegamos a ele depois de meses cumprindo funções.

Já fomos muitas coisas.

Produtivos.

Cansados.

Responsáveis.

Atrasados.

Disponíveis.

Ausentes.

Fortes.

E talvez tenhamos passado tanto tempo funcionando que esquecemos de perguntar se estamos realmente vivendo.

Não é uma pergunta dramática.

É quase doméstica.

O que você tem vontade de fazer quando ninguém está esperando nada de você?

O que você escolhe quando não precisa provar competência?

O que você gosta quando não precisa justificar?

O que existe em você que não serve para nenhuma função?

Talvez essas perguntas sejam mais importantes do que parecem.

Porque uma vida não deveria ser medida apenas pela sua utilidade.

Não somos apenas aquilo que fazemos pelos outros.

Não somos apenas o trabalho que entregamos.

A casa que mantemos.

Os filhos que criamos.

Os problemas que resolvemos.

As pessoas que acolhemos.

Existe uma pessoa antes e depois de todas essas funções.

E às vezes essa pessoa fica esperando.

Em silêncio.

Não necessariamente pedindo uma revolução.

Talvez pedindo apenas um pouco de atenção.

Clarice é cruel nesse ponto porque não deixa o leitor escapar facilmente.

A vida de Macabéa não é transformada numa história bonita apenas para que possamos suportar sua existência.

Há pobreza.

Há abandono.

Há desigualdade.

Há falta de perspectiva.

Há uma brutalidade social que não desaparece porque encontramos poesia nela.

Isso também importa.

Olhar uma vida não significa romantizar aquilo que a esmagou.

Significa reconhecer que havia uma pessoa ali.

E talvez seja esse o movimento mais difícil da maturidade:

aprender a olhar.

Olhar para o outro sem transformá-lo imediatamente em categoria.

E olhar para si mesma sem exigir que sua existência produza alguma grande justificativa.

Você não precisa ser extraordinária todos os dias.

Não precisa transformar cada dificuldade em aprendizado.

Não precisa sair de cada ano com uma versão melhorada de si mesma.

Às vezes, continuar existindo já foi trabalho suficiente.

Mas existir não precisa significar apenas sobreviver.

Em algum momento, é preciso começar a ocupar a própria vida.

Escolher alguma coisa.

Recusar alguma coisa.

Desejar alguma coisa.

Dizer:

isso eu quero.

Isso eu não quero.

Isso importa para mim.

Isso não importa mais.

Talvez a liberdade comece de uma maneira muito menos grandiosa do que imaginamos.

Comece quando alguém deixa de esperar que outra pessoa confirme que sua vida tem valor.

Não precisamos ser vistos por todo mundo.

Mas precisamos aprender a não desaparecer de nós mesmos.

Setembro está aí.

O ano ainda não acabou.

E talvez a pergunta não seja o que ainda podemos conquistar antes de dezembro.

Talvez seja outra:

onde, na nossa própria vida, estamos presentes apenas pela metade?

Pode ser no trabalho.

Numa relação.

Dentro de casa.

Num projeto abandonado.

Num desejo que nunca ganhou espaço.

Ou simplesmente em nós mesmos.

Talvez seja hora de voltar.

Não para começar outra vida.

Para ocupar esta.

A que já existe.

A que passou meses acontecendo enquanto estávamos ocupados demais tentando dar conta dela.

A vida que ninguém estava olhando.

Inclusive nós.

Até agora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Hades / Plutão senhor do submundo e do reino dos mortos #0098

Ártemis: O arquétipo da mulher independente #00107

O mito de Deucalião e a grande inundação #00103