Ainda estamos aprendendo a viver #00437


Talvez uma das maiores ilusões da vida adulta seja imaginar que, em algum momento, finalmente saberemos viver.

Como se existisse uma espécie de diploma.

Primeiro aprendemos a andar.

Depois a falar.

Depois a estudar.

Trabalhar.

Ganhar dinheiro.

Cuidar de alguém.

Pagar contas.

Tomar decisões.

E então, em algum ponto indeterminado da vida, deveríamos finalmente saber o que estamos fazendo.

Mas ninguém entrega esse certificado.

Continuamos improvisando.

É isso que existe de tão preciso no título “Aprendendo a viver”, de Clarice Lispector.

Não é “aprendi a viver”.

É aprendendo.

O verbo não termina.

Talvez porque viver não seja uma habilidade que dominamos. É uma coisa que fazemos enquanto ainda estamos tentando compreender o que ela significa.

Há dias em que sabemos.

Há dias em que não fazemos a menor ideia.

Há dias em que tomamos uma decisão com absoluta convicção e, alguns meses depois, percebemos que estávamos completamente errados.

E há dias em que fazemos alguma coisa sem saber por quê e, anos depois, descobrimos que aquela escolha mudou tudo.

A vida não oferece um manual retrospectivo.

Não há legenda.

Não há narrador explicando:

“Agora preste atenção. Este é o momento importante.”

O momento importante quase nunca parece importante enquanto acontece.

Talvez por isso passemos tanto tempo esperando o momento certo.

Esperamos estar preparados.

Esperamos ter dinheiro.

Esperamos coragem.

Esperamos certeza.

Esperamos que a situação fique mais clara.

Esperamos que alguém nos diga que estamos fazendo a coisa certa.

Esperamos.

E enquanto esperamos, a vida continua acontecendo.

Clarice é boa companhia para esse tipo de constatação porque não oferece uma solução organizada.

Ela oferece percepção.

Uma mudança pequena no modo de olhar pode alterar completamente aquilo que parecia conhecido.

Uma coisa banal deixa de ser banal.

Uma pessoa deixa de ser apenas uma pessoa.

Uma lembrança volta diferente.

Um silêncio passa a dizer alguma coisa.

Uma manhã comum ganha uma espécie de espessura.

Talvez viver seja menos controlar a existência e mais aprender a percebê-la.

Isso não significa passividade.

Muito pelo contrário.

Perceber melhor pode ser uma forma de agir melhor.

Quem percebe que uma relação está morta pode parar de fingir que ela está viva.

Quem percebe que determinado trabalho já não faz sentido pode começar a construir outra saída.

Quem percebe que está exausto pode parar de chamar exaustão de falta de disciplina.

Quem percebe que deseja alguma coisa pode finalmente admitir o desejo.

O problema é que perceber tem um custo.

Depois que sabemos, fica mais difícil fingir que não sabemos.

É por isso que algumas pessoas preferem não olhar.

Não porque sejam ignorantes.

Porque enxergar obriga a escolher.

E escolher significa perder alguma coisa.

Toda decisão fecha algumas portas.

Até mesmo as boas decisões.

Essa talvez seja uma das coisas que aprendemos tarde demais.

Maturidade não é chegar a uma vida em que todas as possibilidades continuam abertas.

É conseguir escolher algumas sabendo que outras ficarão para trás.

E continuar.

Setembro volta aqui como um mês particularmente honesto.

Já não existe a euforia artificial do início.

Também não existe ainda a sensação de encerramento de dezembro.

É um intervalo.

Um ponto no meio do caminho.

E talvez seja justamente por isso que setembro seja mais parecido com a vida real.

Porque quase nunca estamos começando.

Quase nunca estamos terminando.

Estamos no meio.

No meio de uma mudança.

No meio de uma dúvida.

No meio de uma relação.

No meio de uma carreira.

No meio de uma casa que ainda não conseguimos organizar.

No meio de uma versão de nós que já morreu, enquanto outra ainda não nasceu direito.

O meio é desconfortável.

Não temos a segurança do conhecido nem a excitação completa do desconhecido.

Temos apenas aquilo que existe agora.

E é justamente aí que precisamos viver.

Não depois.

Agora.

Talvez aprender a viver seja parar de exigir que a vida faça sentido antes de ser vivida.

Algumas coisas só fazem sentido depois.

Outras nunca farão.

E há uma liberdade estranha nisso.

Não precisamos compreender tudo.

Precisamos apenas aprender a distinguir aquilo que merece nossa atenção daquilo que está apenas fazendo barulho.

Aprender a dizer não.

Aprender a ficar.

Aprender a ir embora.

Aprender a começar novamente.

Aprender a suportar um período em que nada parece acontecer.

Aprender a reconhecer quando alguma coisa está acontecendo justamente porque parece que nada está acontecendo.

Aprender a não transformar cada sofrimento em destino.

Aprender a não transformar cada felicidade em promessa.

Aprender a perder sem transformar a perda em identidade.

Aprender a ganhar sem imaginar que finalmente chegamos.

E, sobretudo, aprender que não chegamos.

Não existe a versão definitiva de nós.

Ainda bem.

Porque uma vida completamente resolvida seria, de certa maneira, uma vida encerrada.

Talvez a maturidade não esteja em saber finalmente quem somos.

Talvez esteja em conseguir continuar vivendo mesmo quando essa resposta muda.

Clarice nos devolve ao gerúndio.

Aprendendo.

Não aprendida.

Não concluída.

Não pronta.

Aprendendo.

É uma palavra pequena para uma tarefa enorme.

E talvez seja tudo o que setembro precisa nos lembrar.

O ano ainda não acabou.

Nós também não.

Ainda há coisas que não sabemos.

Ainda há portas que não abrimos.

Ainda há pessoas que não conhecemos.

Ainda há decisões que não tomamos.

Ainda há partes de nós que permanecem desconhecidas.

E, apesar disso, a vida não espera nossa compreensão completa.

Ela continua.

O café esfria.

A tarde chega.

O corpo envelhece.

Uma árvore floresce.

Alguém vai embora.

Alguém chega.

Uma ideia aparece.

Outra morre.

E nós seguimos tentando aprender.

Não porque um dia finalmente saberemos viver.

Mas porque viver é exatamente esse processo interminável de aprender enquanto a vida acontece.

Talvez seja essa a única forma possível de estar pronto:

aceitar que nunca estaremos.

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