As coisas pequenas que nunca foram pequenas #00441
Os adultos têm uma mania estranha de decidir quais sofrimentos merecem ser levados a sério.
Uma criança chora porque não ganhou uma fantasia.
“É bobagem.”
Uma adolescente sofre porque alguém não a convidou para uma festa.
“Daqui a pouco passa.”
Alguém perde uma amizade.
“Você ainda vai conhecer muita gente.”
Uma pessoa se decepciona com alguma coisa que desejou durante meses.
“Não era para tanto.”
Talvez seja.
Em “Restos do carnaval”, Clarice Lispector volta a uma lembrança de infância para falar de uma coisa que os adultos frequentemente esquecem:
o tamanho de uma experiência não é medido pelo tamanho do acontecimento.
A menina quer se fantasiar para o carnaval.
A expectativa é enorme.
Mas a vida doméstica atravessa a fantasia.
A mãe de uma amiga consegue improvisar uma fantasia de rosa para ela. E então, por algumas horas, aquela criança pode finalmente participar daquilo que desejava.
Só que o carnaval não acontece exatamente como deveria.
Existe doença.
Existe preocupação.
Existe a realidade adulta invadindo uma festa infantil.
E existe aquela mistura estranha de alegria e tristeza que talvez seja uma das marcas mais precoces da vida.
A criança ainda não sabe que as coisas podem ser simultaneamente boas e ruins.
Ela apenas sente.
Nós aprendemos depois a separar.
A dizer:
“Isso é grave.”
“Isso não é grave.”
“Isso vale a pena.”
“Isso não vale.”
Aprendemos a hierarquizar nossas dores.
Às vezes, para sobreviver.
Outras vezes, para não parecer fracos.
E algumas vezes fazemos isso com as dores dos outros.
Talvez uma das formas mais cruéis de diminuir alguém seja explicar por que aquilo que ela sente não deveria doer.
“Você está exagerando.”
“Foi só isso?”
“Existem problemas muito maiores.”
É verdade.
Existem problemas maiores.
Sempre existirão.
Mas a existência de uma dor maior não transforma uma dor menor em mentira.
Uma criança não precisa ter perdido tudo para estar triste porque perdeu uma coisa.
Um adulto não precisa ter vivido uma tragédia para ter o direito de sofrer uma frustração.
A comparação é uma péssima medida para a experiência humana.
O que Clarice recupera em “Restos do carnaval” é justamente essa dimensão que a idade adulta costuma esmagar.
A experiência subjetiva.
Aquilo que aconteceu dentro.
Porque o acontecimento externo pode ter sido pequeno.
Mas aquilo que ele significou pode ter sido enorme.
Uma fantasia de carnaval pode significar pertencimento.
Pode significar ser igual às outras crianças por algumas horas.
Pode significar beleza.
Pode significar finalmente receber alguma coisa que se desejou.
Pode significar ser vista.
E talvez seja por isso que algumas lembranças aparentemente insignificantes sobrevivam durante décadas.
Não lembramos apenas do que aconteceu.
Lembramos de quem éramos quando aconteceu.
Esse é o ponto que me interessa.
As lembranças não guardam somente acontecimentos.
Guardam versões nossas.
A criança que esperava.
A adolescente que queria ser aceita.
A mulher que tentou agradar.
A pessoa que acreditou.
Aquela que ainda não sabia.
Elas permanecem em algum lugar.
Não necessariamente para nos prender ao passado.
Às vezes para nos lembrar de alguma coisa que perdemos.
A capacidade de desejar.
A capacidade de esperar.
A capacidade de se decepcionar sem transformar imediatamente a decepção em cinismo.
Porque o cinismo é uma defesa eficiente.
Se não esperamos nada, nada nos decepciona.
Se não queremos muito, não perdemos muito.
Se não mostramos entusiasmo, ninguém pode rir dele.
Se não precisamos de ninguém, ninguém pode nos abandonar.
Parece força.
Mas muitas vezes é apenas medo com boa postura.
A criança de “Restos do carnaval” ainda não aprendeu esse truque.
Ela deseja.
Por isso pode se decepcionar.
E, justamente por isso, pode também experimentar uma felicidade que um adulto excessivamente protegido talvez nem consiga mais reconhecer.
Isso aparece também em outras lembranças de Clarice.
A infância não é apresentada como um paraíso.
Ela é um lugar de intensidade.
Tudo é maior.
A vergonha.
A expectativa.
A alegria.
A crueldade.
A espera.
A frustração.
Talvez crescer seja aprender a reduzir o volume de quase tudo.
Precisamos fazer isso para funcionar.
Não podemos chorar a cada frustração.
Não podemos tratar toda rejeição como catástrofe.
Não podemos esperar que cada desejo seja atendido.
Mas existe um perigo quando aprendemos a reduzir tanto o volume que também diminuímos nossa capacidade de sentir alegria.
A mesma pessoa que diz:
“Isso não é nada”
para uma decepção pode acabar dizendo:
“Isso não é nada”
para uma felicidade.
E aí a vida fica administrável.
Também fica menor.
Setembro, aqui, não é sobre recomeçar.
É sobre lembrar.
Não para morar na infância.
Mas para olhar para certas versões antigas de nós sem a arrogância do adulto que sabe tudo.
Talvez aquela criança não fosse exagerada.
Talvez ela simplesmente ainda soubesse o tamanho que as coisas tinham para ela.
Talvez algumas coisas que hoje tratamos como pequenas tenham sido, um dia, enormes.
E talvez algumas delas ainda sejam.
Há uma pergunta que podemos fazer diante de nossas próprias lembranças:
O que eu aprendi a chamar de bobagem porque ninguém levou a sério?
Pode ser uma tristeza.
Uma humilhação.
Uma rejeição.
Uma necessidade.
Um desejo.
Uma vergonha.
Pode ser até uma alegria que aprendemos a esconder porque parecia ridícula demais para mostrar.
Não precisamos transformar tudo isso em trauma.
Esse é outro exagero contemporâneo.
Nem toda lembrança dolorosa precisa receber um diagnóstico.
Algumas coisas simplesmente aconteceram.
Algumas doeram.
Algumas passaram.
Algumas ficaram.
O importante é não mentir sobre o que sentimos.
Porque aquilo que não pode ser reconhecido costuma encontrar outras maneiras de aparecer.
No corpo.
Nos hábitos.
Nas escolhas.
Nas relações.
Nas coisas que evitamos.
Nas coisas que desejamos desesperadamente.
Talvez maturidade não seja olhar para a criança que fomos e dizer:
“Você deveria ter sido mais forte.”
Talvez seja olhar e dizer:
“Agora eu entendo por que aquilo importava.”
Sem exagerar.
Sem dramatizar.
Sem apagar.
Apenas reconhecendo.
Porque existem coisas pequenas que nunca foram pequenas.
E algumas delas continuam esperando que o adulto que nos tornamos finalmente as enxergue.
Não para voltar ao passado.
Para deixar que o passado pare de precisar gritar.
Comentários
Postar um comentário
🪐 Deixe seu rastro no caos... Ideias, dúvidas ou enigmas existenciais? Aproveite para comentar enquanto ainda estamos todos no mesmo plano.
Ajude outros a transcender também. ✨