Enquanto ninguém está olhando #00434


Existe uma parte da nossa vida que não acontece diante dos outros.

Não é necessariamente segredo. É simplesmente aquilo que não cabe na versão de nós que circula pelo mundo.

Enquanto trabalhamos, respondemos mensagens, resolvemos problemas, fazemos compras, cuidamos de alguém, cumprimos horários e sustentamos conversas, existe uma outra vida acontecendo em silêncio.

Uma vida sem plateia.

Clarice Lispector tinha um interesse particular por esse lugar.

Em “Enquanto vocês dormem”, há essa atmosfera de vigília. Enquanto os outros dormem, alguma coisa permanece acordada. E não é apenas a cidade, a noite ou o pensamento. É aquela parte de nós que não consegue simplesmente desligar quando o mundo finalmente fica quieto.

Durante o dia, somos muito ocupados para perceber certas coisas.

À noite, elas nos encontram.

É quando algumas perguntas aparecem sem serem convidadas.

Estou vivendo a vida que quero ou apenas administrando a vida que tenho?

O que em mim mudou e ainda não teve coragem de aparecer?

O que continuo fazendo apenas porque comecei a fazer há muito tempo?

Há pessoas que conhecem muito bem a nossa biografia e quase nada da nossa vida interior.

Sabem onde trabalhamos.

Com quem moramos.

O que fazemos.

O que compramos.

O que publicamos.

Mas não sabem aquilo que acontece quando fechamos a porta.

E talvez nem nós saibamos completamente.

Existe uma espécie de solidão necessária nesse espaço.

Não a solidão romântica das pessoas que dizem gostar de ficar sozinhas porque isso soa sofisticado.

A solidão verdadeira é menos elegante.

É estar consigo sem distração suficiente para escapar.

É descobrir que algumas certezas eram apenas hábitos.

Que algumas relações sobreviveram mais por função do que por presença.

Que determinadas ambições já não nos pertencem.

Que há desejos que foram enterrados tão profundamente que, quando finalmente aparecem, parecem pertencer a outra pessoa.

A maturidade talvez comece nesse ponto.

Não quando passamos a ter respostas.

Mas quando conseguimos suportar perguntas que não têm resposta imediata.

Durante muito tempo, confundimos amadurecer com tornar-nos eficientes.

Aprender a pagar contas.

Resolver problemas.

Ser responsáveis.

Controlar emoções.

Não depender de ninguém.

Dar conta.

Dar conta de tudo.

Só que existe uma armadilha aí.

Uma pessoa pode se tornar extremamente competente em administrar a própria vida e continuar sem saber se está vivendo dentro dela.

Clarice desconfiava dessas aparências de estabilidade.

Talvez porque soubesse que a vida verdadeira não se organiza tão facilmente.

Ela aparece em uma lembrança.

Em uma frase.

Em uma irritação desproporcional.

Em uma vontade inexplicável.

Em um silêncio que demora.

Em uma noite em que todos dormem e alguma coisa dentro de nós permanece acordada.

Setembro é um bom mês para essa espécie de insônia.

O ano já avançou o suficiente para que algumas ilusões tenham caído.

Mas ainda não avançou tanto a ponto de nos convencer de que nada pode ser alterado.

É um intervalo.

E intervalos são perigosos.

Porque neles percebemos coisas.

Talvez por isso tanta gente prefira permanecer ocupada.

A ocupação é uma excelente maneira de não ouvir.

Enquanto há alguma coisa para resolver, não precisamos perguntar o que estamos fazendo da própria vida.

Enquanto alguém precisa de nós, não precisamos descobrir quem somos quando ninguém precisa.

Enquanto existe barulho, não percebemos o que está acontecendo no silêncio.

Mas o silêncio não desaparece.

Ele espera.

E uma hora a casa fica quieta.

As mensagens cessam.

As pessoas dormem.

O dia termina.

E então sobra você.

Não a versão profissional.

Não a versão familiar.

Não a versão socialmente aceitável.

Você.

Aquela pessoa que talvez esteja cansada de representar até para si mesma.

É nesse momento que alguma coisa pode começar.

Não necessariamente uma grande mudança.

Às vezes começa apenas uma honestidade.

Isso já não me serve.

Ou:

Eu quero isso.

Ou ainda:

Não sei o que quero, mas sei que não quero continuar assim.

É pouco.

Mas não é pouco.

Há transformações que começam exatamente dessa maneira: sem anúncio, sem testemunhas e sem nenhuma garantia de que darão certo.

Enquanto todos dormem.

Quando ninguém está olhando.

Quando não existe aplauso para a decisão e nenhuma fotografia para registrar o instante.

Talvez seja aí que uma vida comece a mudar de verdade.

Não quando mostramos ao mundo quem estamos nos tornando.

Mas quando finalmente conseguimos admitir, no escuro, quem já não conseguimos continuar sendo.

Setembro talvez seja isso também:

um mês para ouvir aquilo que só consegue falar quando a casa inteira está em silêncio.

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