Nem todo desânimo pede uma saída #00435
Há um tipo de desânimo que não nasce porque alguma coisa deu errado.
Nasce porque alguma coisa deixou de funcionar.
Você continua fazendo.
Continua tentando.
Continua explicando.
Continua falando.
E, ainda assim, existe a sensação incômoda de que aquilo que realmente precisava ser dito não chegou a lugar nenhum.
Foi mais ou menos desse lugar que Clarice Lispector escreveu sobre este assunto.
Ela percebe que, ao escrever, por mais que se expresse, continua com a sensação de não ter realmente se expressado. O problema já não parece ser falta de palavras. É quase o contrário: há palavras demais entre aquilo que ela sente e aquilo que consegue dizer.
Então ela pensa em experimentar o silêncio.
Não abandonar a escrita.
Não desaparecer.
Silêncio.
É uma diferença fundamental.
Porque existe uma ideia contemporânea particularmente cansativa de que todo desânimo precisa imediatamente virar ação.
Está desanimada?
Reorganize sua rotina.
Faça uma lista.
Mude seus hábitos.
Levante cedo.
Tome água.
Estabeleça metas.
Tenha disciplina.
Transforme a dor em aprendizado.
Há quase uma indústria dedicada a impedir que uma pessoa simplesmente admita:
isto não está funcionando.
Clarice faz outra coisa.
Ela para.
Olha para o problema.
E considera que talvez o erro esteja no próprio modo de tentar.
Isso é muito mais radical do que parece.
Porque, quando alguma coisa não funciona, nossa primeira reação costuma ser aumentar a dose.
Mais esforço.
Mais explicação.
Mais insistência.
Mais controle.
Mais palavras.
Até que aquilo que precisava ser resolvido fica soterrado justamente pelo excesso de tentativa.
Talvez algumas coisas não precisem de mais força.
Precisem de outra forma.
Há momentos em que insistir é apenas uma maneira sofisticada de permanecer parado.
Você repete o mesmo procedimento, muda pequenas coisas, aperta um pouco mais, tenta novamente e chama isso de perseverança.
Mas perseverança e repetição não são a mesma coisa.
Persistir é continuar em direção a alguma coisa.
Repetir é fazer novamente aquilo que já demonstrou não funcionar.
A diferença parece pequena.
Não é.
Setembro é um bom mês para perceber isso.
Janeiro ainda permite aquela fantasia confortável de que tudo será diferente.
Setembro já tem provas.
O ano mostrou algumas coisas.
Algumas deram certo.
Outras não.
Há projetos que avançaram.
Há outros que continuam exatamente no mesmo lugar.
Há conversas que deveriam ter acontecido e não aconteceram.
Há decisões que continuamos adiando.
E talvez exista uma pergunta mais útil do que “o que preciso fazer até dezembro?”.
O que preciso parar de fazer do mesmo jeito?
Clarice encontra o silêncio.
Não porque tenha desistido de se expressar, mas porque percebe que precisava deixar de perseguir a expressão.
Há uma frase central da crônica em que ela desloca completamente a questão: não se trata mais de “eu me exprimo, logo sou”, mas de “eu sou; logo sou”.
É uma pequena revolução.
Porque passamos boa parte da vida tentando provar nossa existência através daquilo que fazemos.
Eu trabalho.
Eu produzo.
Eu cuido.
Eu explico.
Eu escrevo.
Eu resolvo.
Eu demonstro.
Eu me posiciono.
Eu mostro quem sou.
Até que um dia percebemos o absurdo:
talvez não seja necessário produzir uma demonstração permanente de existência.
Talvez seja possível simplesmente existir.
E talvez seja justamente daí que alguma expressão verdadeira possa surgir.
Há um silêncio que é desistência.
Mas há outro que é elaboração.
Um silêncio que não fecha a porta.
Apenas deixa de bater nela.
Um silêncio que permite perceber que talvez a porta nem fosse aquela.
É isso que me interessa nessa crônica.
Não o desânimo.
A inteligência do desânimo.
Porque há desânimos que são apenas cansaço.
Mas há outros que são informação.
Eles aparecem para dizer:
alguma coisa precisa mudar.
Não necessariamente a vida inteira.
Às vezes, somente o método.
Às vezes, a expectativa.
Às vezes, a pessoa para quem estamos tentando explicar alguma coisa.
Às vezes, a necessidade de sermos compreendidos.
Às vezes, a própria pergunta.
E há momentos em que precisamos aceitar uma coisa desagradável:
nem tudo que sentimos precisa imediatamente virar discurso.
Nem tudo precisa ser explicado.
Nem tudo precisa ser publicado.
Nem tudo precisa ser transformado em aprendizado.
Algumas coisas precisam primeiro ficar em silêncio para descobrirmos o que realmente significam.
Talvez maturidade tenha alguma relação com isso.
Saber quando insistir.
Saber quando parar.
E, sobretudo, saber a diferença entre os dois.
Setembro não precisa nos encontrar renovados.
Pode nos encontrar cansados.
Pode nos encontrar confusos.
Pode nos encontrar decepcionados com algumas coisas que prometemos a nós mesmos em janeiro.
Tudo bem.
O problema não é estar desanimado.
O problema é transformar o desânimo em identidade.
“Estou cansada” é uma informação.
“Eu sou uma pessoa cansada” já é uma sentença.
Uma permite mudança.
A outra fecha a porta.
Talvez, neste setembro, não seja necessário encontrar uma saída.
Talvez seja suficiente perceber onde estamos insistindo contra a parede.
E fazer silêncio.
Não para desaparecer.
Para finalmente escutar de onde vem a nossa própria voz.
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