O que acontece quando a vida nos acorda #00440
Existe uma forma muito eficiente de não sofrer:
organizar a vida de modo que quase nada possa surpreendê-la.
Horários.
Rotinas.
Obrigações.
Compras.
Casa.
Trabalho.
Família.
Pequenos hábitos repetidos até adquirirem a aparência de destino.
Não há nada necessariamente errado nisso.
A rotina pode proteger.
O problema começa quando confundimos proteção com vida.
Em “Amor”, Clarice Lispector constrói uma personagem que parece ter encontrado uma maneira razoavelmente segura de existir.
Ana tem marido, filhos, casa, tarefas.
Sua vida está organizada.
Ela ocupa seu lugar.
Cuida.
Resolve.
Mantém as coisas funcionando.
Até que um dia vê um cego mascando chiclete.
É uma cena banal.
Justamente por isso é devastadora.
O cego não faz nada extraordinário.
Não diz uma frase reveladora.
Não oferece uma explicação.
Ele simplesmente está ali.
E, ao vê-lo, alguma coisa em Ana se rompe.
A rotina perde sua superfície lisa.
O mundo que parecia organizado começa a revelar uma espécie de desordem escondida.
Talvez seja isso que mais assuste na vida:
não aquilo que destrói tudo de uma vez,
mas aquilo que nos faz perceber que aquilo que chamávamos de estabilidade já estava cheio de rachaduras.
Ana não estava necessariamente infeliz.
E isso torna tudo mais interessante.
Se ela fosse miserável, seria fácil.
Bastaria sair.
Mas não é assim que as coisas funcionam.
Às vezes temos uma vida boa e, ainda assim, alguma coisa dentro de nós pergunta se aquela é a única vida possível.
Essa pergunta pode ser perigosa.
Porque depois que aparece, não desaparece simplesmente porque preferimos não ouvi-la.
Há uma diferença entre estar em paz e estar anestesiado.
A paz permite que a vida entre.
A anestesia impede que ela incomode.
Ana tinha construído uma espécie de ordem doméstica.
O encontro com o cego introduz o acaso.
E o acaso é um péssimo hóspede para quem passou anos tentando manter tudo sob controle.
Ele não pede licença.
Não respeita planejamento.
Não consulta agenda.
Não pergunta se estamos preparados.
Apenas acontece.
Talvez seja por isso que determinadas experiências nos desorganizem tanto.
Não porque sejam necessariamente ruins.
Mas porque nos devolvem à condição de seres vivos.
E seres vivos não são perfeitamente organizáveis.
Sentem.
Desejam.
Mudam.
Perdem.
Querem.
Desistem.
Recomeçam.
Contradizem-se.
A vida de Ana começa a ficar estranha justamente quando ela volta a perceber demais.
O mundo ganha excesso.
As plantas.
A cidade.
Os animais.
As pessoas.
As sensações.
Tudo parece mais intenso.
É como se uma porta tivesse sido aberta e, depois de aberta, já não fosse possível fingir que não existe outro lado.
Existe uma pergunta incômoda escondida aí:
quantas partes de nós mantemos adormecidas para conseguir continuar funcionando?
A pergunta não é uma defesa da desordem.
Não precisamos destruir nossa vida para provar que estamos vivos.
Esse é outro clichê perigoso.
Não é necessário abandonar família, emprego, casa ou rotina para experimentar alguma transformação.
Às vezes basta olhar.
De verdade.
Olhar para aquilo que já estava ali.
Uma pessoa.
Uma conversa.
Um desejo.
Uma insatisfação.
Um cansaço.
Uma vontade que sempre pareceu inconveniente.
O problema é que olhar de verdade pode produzir consequências.
Porque perceber alguma coisa cria responsabilidade.
Depois que sabemos que estamos infelizes, fica mais difícil fingir que não sabemos.
Depois que percebemos que desejamos outra vida, a antiga pode começar a parecer insuficiente.
Depois que descobrimos que amamos, odiamos ou desejamos alguma coisa, já não podemos voltar completamente à ignorância.
A consciência desorganiza.
Mas também devolve movimento.
Talvez por isso a maturidade não seja uma progressão linear em direção à estabilidade.
Talvez amadurecer seja aprender a suportar períodos de desorganização sem destruir tudo por impulso.
Existe uma diferença entre mudar e fugir.
Entre escutar um desejo e obedecer imediatamente a ele.
Entre reconhecer que uma vida não serve mais e acreditar que qualquer outra será automaticamente melhor.
Ana não recebe uma fórmula.
Ela recebe uma perturbação.
E talvez seja isso que certas experiências importantes nos oferecem.
Não respostas.
Perguntas que não conseguimos mais desouvir.
Setembro tem essa característica.
O ano já nos deu tempo suficiente para perceber o que estamos repetindo.
E ainda há tempo suficiente para perguntar se queremos continuar.
Talvez seja por isso que setembro seja um mês mais interessante do que janeiro.
Janeiro permite declarar:
“Este ano será diferente.”
Setembro pergunta:
“O que, exatamente, precisa ser diferente?”
A segunda pergunta exige muito mais coragem.
Porque não podemos mudar tudo.
Precisamos escolher.
E escolher significa admitir que algumas coisas ficam e outras precisam ir.
Há relações que precisam de conversa.
Há hábitos que precisam morrer.
Há desejos que precisam ser levados a sério.
Há outros que precisam ser abandonados.
Há vidas que precisam ser preservadas.
Há versões de nós que precisam terminar.
Não há fórmula universal.
Existe apenas a difícil tarefa de prestar atenção.
Talvez seja isso que o cego de “Amor” faça com Ana.
Ele não a salva.
Ele a interrompe.
E às vezes uma interrupção é exatamente o que precisamos.
Não para abandonar a vida.
Para voltar a enxergá-la.
Porque existe uma coisa assustadora em viver durante anos sem perceber que estamos vivendo no automático.
E existe uma coisa igualmente assustadora em acordar.
Depois que acordamos, não podemos exigir que o mundo volte a ser como antes.
O mundo não mudou.
Nós é que passamos a vê-lo.
E talvez seja isso que o amor, em Clarice, tenha de mais perigoso.
Não necessariamente alguém entrar na nossa vida.
Mas alguma coisa dentro de nós finalmente se tornar impossível de ignorar.
Às vezes não precisamos de uma nova vida.
Precisamos apenas acordar para a que já temos.
E descobrir o que, nela, ainda está vivo.
Comentários
Postar um comentário
🪐 Deixe seu rastro no caos... Ideias, dúvidas ou enigmas existenciais? Aproveite para comentar enquanto ainda estamos todos no mesmo plano.
Ajude outros a transcender também. ✨