Quando ainda sabemos esperar #00433
Há uma idade em que acordamos antes do dia nascer porque alguma coisa vai acontecer.
Não sabemos exatamente o quê. Sabemos apenas que existe um mar esperando por nós.
Em “Banhos de mar”, Clarice Lispector volta à infância para falar dessas manhãs em que sair para o mar era uma espécie de acontecimento. Havia o escuro, o despertar cedo, a expectativa. O dia ainda não tinha começado e, no entanto, alguma coisa já estava sendo esperada.
Talvez seja isso que a idade adulta nos roube primeiro: a capacidade de esperar sem exigir garantias.
Quando somos crianças, uma promessa pode ser suficiente. O mar existe. O dia vai clarear. Alguém vai nos levar. Basta isso.
Depois crescemos.
Aprendemos que o mar também pode estar frio. Que pode chover. Que alguém pode não aparecer. Que certas promessas não eram promessas coisa nenhuma. Aprendemos a desconfiar daquilo que ainda não aconteceu porque já conhecemos algumas das coisas que podem dar errado.
E então começamos a chamar prudência aquilo que, às vezes, é apenas medo.
Clarice me interessa justamente nesse ponto. Ela não transforma a infância numa fotografia cor-de-rosa. A memória não é um lugar onde tudo era melhor. É um lugar onde ainda existia uma determinada maneira de olhar.
E talvez seja essa maneira de olhar que faça falta.
Setembro tem alguma coisa disso.
Não porque seja o mês das flores, como gostam de dizer os calendários. A primavera é muito mais complicada do que isso. Setembro chega quando o ano já perdeu a inocência de janeiro.
Janeiro ainda permite promessas grandiosas.
Em setembro, já sabemos o que não aconteceu.
Já conhecemos alguns fracassos do ano. Algumas pessoas que ficaram pelo caminho. Algumas decisões que não deram certo. Algumas coisas que continuamos adiando. Já descobrimos que determinadas mudanças não acontecem porque colocamos uma frase bonita na agenda.
E, ainda assim, o dia clareia.
Essa talvez seja uma das coisas mais discretamente violentas e bonitas da existência: o mundo não espera que estejamos prontos.
A manhã chega.
O corpo levanta.
A vida continua.
Mas existe uma diferença entre continuar porque não temos alternativa e continuar porque ainda somos capazes de esperar alguma coisa.
É aí que a lembrança dos banhos de mar se torna maior do que a própria lembrança.
A criança de Clarice acordava para encontrar o mar.
Nós, adultos, precisamos aprender novamente a acordar sem saber exatamente o que encontraremos.
Não se trata de recuperar ingenuidade.
Ingenuidade é acreditar que nada ruim acontecerá.
Esperança é saber que coisas ruins acontecem e, mesmo assim, não entregar a elas o direito de determinar tudo o que virá depois.
Talvez amadurecer seja justamente isso: perder a ingenuidade sem perder completamente a expectativa.
Continuar esperando o dia, mas agora sabendo que ele pode trazer tanto o sol quanto a chuva.
Entrar no mar sabendo que a água pode estar fria.
Ir mesmo assim.
Há coisas que só podem ser descobertas depois que chegamos perto.
Talvez setembro seja uma boa época para perguntar:
Ainda existe alguma coisa que eu espero?
Não uma promessa grandiosa.
Não uma reinvenção completa.
Alguma coisa pequena o suficiente para ser verdadeira.
Uma conversa.
Uma decisão.
Uma casa arrumada.
Um trabalho que finalmente faça sentido.
Um livro que ainda queremos escrever.
Uma porta que precisamos abrir.
Uma parte de nós que deixamos esperando em algum lugar.
Porque talvez o contrário da esperança não seja o desespero.
Talvez seja a indiferença.
Aquele momento em que já não esperamos nada porque assim também não corremos o risco de nos decepcionar.
É uma proteção eficiente.
E uma vida pequena.
Clarice parece saber disso.
Por isso gosto de voltar a esse mar.
Não para voltar a ser criança.
Mas para lembrar que houve um tempo em que acordar antes do dia nascer não parecia absurdo.
Havia alguma coisa lá fora.
E nós íamos encontrá-la.
Setembro começa quando, apesar de tudo o que já sabemos, ainda somos capazes de levantar antes do dia nascer.
Esse primeiro post estabelece a chave da série: não romantizar o recomeço, mas investigar o que ainda nos faz mover. O segundo, Enquanto vocês dormem, pode ficar mais denso e interior, quase como uma descida para aquilo que acontece quando ninguém está vendo.
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