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Mostrando postagens de abril, 2026

Cada "qual" em seu lugar #00266

Há formas de violência que o mercado de trabalho aperfeiçoou com a mesma sofisticação com que escolhe a fonte do PowerPoint. Não fazem barulho. Não deixam hematoma. Não produzem escândalo. Produzem agenda. A pessoa segue empregada, convidada, incluída, “visível”. Só lhe retiram, aos poucos, aquilo que lhe dava contorno: a função, a autoridade, o peso, a assinatura. É um tipo de morte muito corporativa. Primeiro suspendem a caneta. Depois esvaziam a cadeira. Por fim, preservam o corpo. O nome continua na reunião. A utilidade, não. E é nesse ponto, quase sempre, que aparece ela. Toda estrutura um pouco covarde fabrica uma dessas como subproduto natural. Não costuma ser brilhante. Brilhante demais, aliás, atrapalharia. Esse tipo prospera por outro método, muito mais premiado em certas empresas: a eficiência dócil, a obediência perfumada, a capacidade de transformar a ruína alheia em oportunidade sem jamais parecer vulgar. Tem a delicadeza ensaiada de quem aprendeu cedo que fragilidade apa...

Mercúrio retrógrado #00265

A impressora errou o caminho. Coisa banal. Em vez de mandar o documento para a sala certa, cuspiu as páginas no setor ao lado. Acontece. Máquinas também se confundem. Alguns minutos depois, o telefone tocou. — Oi, estou ligando porque o documento que você enviou veio parar aqui. A voz era masculina, calma, com aquele tom de quem anuncia algo que considera uma gentileza. — Aqui onde? — perguntei. — Na sala da minha esposa. Olhei para o monitor. Pensei por um segundo. — E por que ela não me ligou direto? Houve uma pausa curta, quase ofendida. — Porque ela não tem obrigação. A resposta veio firme, como se resolvesse a questão. Fiquei alguns segundos em silêncio, observando a lógica da frase se desmontar sozinha. — Entendi — respondi. — Então por que você me ligou? Do outro lado da linha, a resposta veio imediata, com uma leve impaciência. — Porque eu sou marido dela. Desligamos logo depois. Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, tentando acompanhar o percurso do raciocínio. A...

Mentiras #00264

Ela dizia que odiava mentiras. Dizia isso com convicção. Nas conversas com amigos, nas discussões de trabalho, até em comentários casuais. — Prefiro a verdade sempre — repetia. Era uma frase que funcionava bem. As pessoas respeitavam quem falava assim. Parecia sinal de caráter firme, de alguém que não tolerava jogos. O curioso é que, no dia a dia, ela convivia com pequenas mentiras o tempo todo. Quando alguém perguntava se estava tudo bem, respondia que sim, mesmo quando não estava. Quando recebia um convite que não queria aceitar, dizia que estava sem tempo. Quando alguém mostrava algo de que não gostava, sorria e dizia que tinha ficado ótimo. Nada grave. Coisas pequenas. Educadas. Socialmente aceitáveis. Ela nunca pensava nelas como mentiras. Mentira, para ela, era outra coisa. Era enganar, trair, esconder coisas importantes. Era o tipo de falsidade que quebra relações. As pequenas distorções do cotidiano eram apenas… convivência. Certa noite, conversando com uma amiga, ela voltou ao...