E quem vem na nossa lente agora? A Roda #00375

O Eremita não recebe um holofote. Ele recebe uma lente de leitura. Aquelas que usamos para enfiar a linha na agulha.
Elas não ampliam o mundo inteiro. Ampliam justamente aquilo que precisa ser visto agora.
Talvez a lanterna do Eremita seja isso.
Ela não existe para revelar todos os mistérios da existência.
Existe para impedir que a consciência tropece no essencial por estar distraída procurando o extraordinário.
E há uma consequência muito elegante na sequência dos arcanos:
O Louco acreditava que sabia.
O Mago acreditava que podia.
O Imperador acreditava que controlava.
Os Enamorados acreditavam que bastava escolher.
O Carro acreditava que bastava conduzir.
A Justiça mostrou que existem leis.
O Eremita descobre que, antes de compreender as leis do universo, talvez seja preciso compreender quem é aquele que insiste em interpretá-las.
É um movimento da realidade para a interioridade. Depois dele, faz todo sentido que venha a Roda da Fortuna, porque quem se conhece começa a perceber padrões que antes chamava apenas de acaso. Isso cria uma passagem muito orgânica para o próximo arcano.

Quase todas as explicações que se encontram sobre este Arcano dizem que a Roda fala sobre "mudanças", "ciclos", "destino".
Mas, dentro da nossa leitura da consciência, ela é muito mais interessante.
O Eremita descobriu quem observa.
Agora a Roda revela o que está sendo observado.
Ela mostra que a vida nunca foi linear.
É feita de ritmos.
De repetições.
De espirais.
E a consciência começa a perceber que muitos acontecimentos que chamava de azar ou coincidência talvez fossem padrões ainda não compreendidos.

A Roda da Fortuna não gira para nos confundir.

Ela gira porque a vida é movimento.

Depois que o Eremita aprende a observar a si mesmo, a consciência começa a perceber algo curioso.

A vida repete assuntos.

Mudam os rostos.

Mudam os lugares.

Mudam os cenários.

Mas certas experiências insistem em retornar.

No primeiro nível do jogo, a Roda parece imprevisível.

Ora estamos em cima.

Ora estamos embaixo.

Ora tudo acontece com facilidade.

Ora tudo parece emperrar.

Chamamos isso de sorte.

De azar.

De destino.

De acaso.

Porque ainda não conseguimos enxergar o desenho inteiro.

Então a consciência sofre.

Acredita que a vida perdeu o controle.

Que o universo mudou de humor.

Que alguém decidiu escrever um roteiro injusto.

Mas a Roda continua girando.

Não para punir.

Nem para premiar.

Apenas porque nada permanece igual.

Em níveis mais profundos, a consciência percebe que os ciclos não servem para nos prender.

Servem para nos ensinar.

A mesma situação retorna.

Não porque a vida tenha pouca criatividade.

Mas porque nós ainda não aprendemos tudo o que ela tinha para ensinar.

Enquanto a lição não amadurece, a paisagem muda.

O tema permanece.

É nesse momento que Jung sussurra uma de suas frases mais conhecidas.

Aquilo que não se torna consciente retorna como destino.

Talvez o destino nunca tenha sido uma força externa.

Talvez seja apenas a repetição daquilo que ainda não compreendemos dentro de nós.

No nível mais alto desse arcano, a consciência deixa de perguntar:

"Por que isso está acontecendo de novo?"

E começa a perguntar:

"O que em mim continua produzindo este mesmo movimento?"

A roda não parou.

Quem começou a girar de outro jeito foi o observador.

Então algo extraordinário acontece.

Os ciclos continuam existindo.

As estações continuam mudando.

O tempo continua passando.

Mas a consciência deixa de ser passageira da roda.

Passa a reconhecer seus ritmos.

E quando compreende seus ritmos, já não luta contra eles.

Aprende a plantar no tempo certo.

A esperar no tempo certo.

A colher no tempo certo.

Talvez essa seja a maior lição da Roda da Fortuna.

A vida nunca prometeu estabilidade.

Prometeu movimento.

E quem aprende a dançar com esse movimento deixa de chamar cada mudança de tragédia.

Passa a reconhecê-la como parte da música.



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