Pausa na vida com o Enforcado #00378

Agora entra em cena o arcano O Enforcado.

Na minha leitura, ele é o primeiro arcano que não pode ser compreendido pela lógica da produtividade.

Até aqui a consciência caminhou, escolheu, construiu, sustentou, observou, integrou.
De repente...
Nada anda.
E a primeira reação é pensar que a vida parou.
Mas ela não parou.
Quem parou foi a forma antiga de enxergá-la.

O Enforcado não perdeu o movimento.

Perdeu a pressa.

Depois que a consciência aprende a dialogar com sua própria natureza, acontece algo que ela jamais esperava.

A vida interrompe seus planos.

No primeiro nível do jogo, isso parece fracasso.

As portas se fecham.

Os projetos atrasam.

Os relacionamentos mudam.

O corpo adoece.

As certezas desaparecem.

A sensação é de estar preso.

Imobilizado.

Como se alguém tivesse suspendido a própria existência.

A consciência luta.

Tenta voltar ao lugar de onde veio.

Empurra as circunstâncias.

Procura culpados.

Insiste em recuperar o controle.

Mas nada responde.

Então ela descobre uma verdade profundamente incômoda.

Nem toda pausa é perda de tempo.

Algumas são mudança de perspectiva.

É curioso observar a imagem do Enforcado.

Ele está de cabeça para baixo.

Mas seu rosto permanece sereno.

Talvez porque tenha compreendido aquilo que ainda escapa aos observadores.

O mundo não mudou.

Foi o ponto de vista.

Em níveis mais profundos, a consciência percebe que existem aprendizagens impossíveis de serem adquiridas caminhando.

Algumas só aparecem quando somos obrigados a parar.

Há perguntas que nunca surgiriam enquanto tudo estivesse funcionando.

Há respostas que só encontram espaço quando o barulho da ação finalmente cessa.

O Enforcado ensina que interromper não é abandonar.

É permitir que uma compreensão amadureça antes do próximo passo.

No nível mais alto desse arcano, a consciência já não pergunta:

"Por que minha vida parou?"

Pergunta:

"O que eu só posso enxergar porque fui obrigado a parar?"

Essa pergunta transforma completamente a experiência.

O tempo deixa de ser inimigo.

A espera deixa de ser castigo.

A suspensão deixa de ser derrota.

Passa a ser preparação.

Talvez essa seja a maior lição do Enforcado.

Nem toda evolução acontece andando para a frente.

Algumas exigem que a consciência aceite olhar o mundo de um ângulo que jamais escolheria espontaneamente.

E, curiosamente, são essas as mudanças que costumam permanecer.

Porque aquilo que muda apenas nossas circunstâncias dura pouco.

Mas aquilo que muda nosso modo de olhar transforma todas as circunstâncias que ainda virão.


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