A covardia de quem precisa de uma plateia #00468



Existe algo particularmente revelador na necessidade de compartilhar com terceiros a desqualificação de um colega.

Uma discordância profissional poderia ser discutida diretamente. Um erro real poderia ser apontado de maneira objetiva. Uma dificuldade poderia ser tratada com transparência.

Mas, quando a situação é transformada em motivo de piadas internas, o assunto deixa de ser apenas o trabalho e passa a envolver a posição social da pessoa dentro do grupo.

O riso compartilhado cria cumplicidade. Os participantes demonstram uns aos outros que estão do mesmo lado. E aquele que se tornou o objeto da brincadeira passa a ocupar uma posição desconfortável: além de lidar com o episódio original, precisa enfrentar a possibilidade de ter sido convertido em assunto entre pessoas que continuam convivendo com ele diariamente.

A questão, portanto, não é simplesmente o que foi dito. É o que o grupo faz com aquilo que aconteceu.

Há uma diferença entre comentar reservadamente uma dificuldade profissional para encontrar uma solução e transformar a dificuldade de alguém em entretenimento.

Há uma diferença entre avaliar criticamente uma entrega e ridicularizar quem a produziu.

Há uma diferença entre conversar com um colega sobre uma decisão e usar essa decisão para reforçar a cumplicidade de um grupo.

Quem participa desse tipo de dinâmica talvez prefira pensar que não tem responsabilidade porque não foi a pessoa que iniciou a situação. Mas o silêncio conivente, o riso de aprovação e a repetição dos comentários também podem contribuir para que o comportamento se perpetue.

Nem sempre a crueldade precisa de um protagonista ostensivo. Às vezes, ela se sustenta porque há pessoas dispostas a aplaudir discretamente, desde que o alvo não sejam elas.

É muito fácil defender a própria dignidade quando não somos nós os motivos da piada.

A verdadeira medida do respeito aparece quando temos a oportunidade de obter aceitação do grupo à custa de outra pessoa — e decidimos não fazê-lo.


CONTINUA

Respeitosamente,
Elaine C. Santos
2648-1372


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