A especialista que não queria pôr a mão na massa #000447


Há uma espécie muito particular de especialista no ambiente de trabalho.

Ela não executa determinada atividade.

Não é responsável por ela.

Não participa das reuniões em que ela é discutida.

Não acompanha as decisões que orientam sua execução.

Mas, ainda assim, possui uma opinião extremamente detalhada sobre como tudo está sendo feito errado.

Durante três anos, ela reclamou.

Reclamou do trabalho.

Dos procedimentos.

Das decisões.

E, principalmente, das pessoas.

Era incompetência para cá, preguiça para lá, burrice acolá. Havia sempre um diagnóstico disponível, geralmente acompanhado de uma sentença definitiva sobre o caráter intelectual de quem estava do outro lado.

Eu, vez ou outra, fazia uma sugestão bastante inconveniente:

"Então, entre nas reuniões. Se você sabe como fazer melhor, talvez seja interessante aparecer no lugar onde as coisas são decididas.

Explique.

Ensine.

Mostre o caminho.

Ajude a construir um procedimento melhor".

A resposta era invariavelmente uma pequena obra-prima da prudência administrativa:

“Eu, hein? Não quero arranjar problema para a minha cabeça.”

Perfeitamente compreensível.

Porque existe uma diferença monumental entre saber que todo mundo está fazendo errado e assumir a responsabilidade de fazer certo.

Na primeira situação, basta ter opinião.

Na segunda, é preciso trabalhar.

E assim seguimos.

Ela reclamando.

As pessoas continuando incompetentes.

Os procedimentos continuando ruins.

E ela preservando cuidadosamente a própria cabeça de qualquer possibilidade de envolvimento.

Até que um dia eu saí do departamento.

E o trabalho, por uma dessas ironias que a administração pública produz com uma eficiência quase literária, caiu justamente nas mãos dela.

Foi então que aconteceu o milagre.

A especialista em incompetência alheia descobriu que o trabalho possuía detalhes.

Que havia procedimentos.

Que existiam decisões anteriores.

Que certas coisas precisavam ser verificadas.

Que algumas etapas não eram tão óbvias.

Que aquilo que parecia simples quando executado por outra pessoa talvez exigisse algum conhecimento.

E então veio o pedido:

“Você pode me fazer um passo a passo de como você cuidava disso?”

Não.

Não poderia.

Não por crueldade.

Por pedagogia.

Durante três anos, ela havia tido a oportunidade de explicar como tudo deveria ser feito.

Agora, finalmente, teria a oportunidade de descobrir.

Eu não queria privá-la dessa experiência educativa.

Há conhecimentos que não podem ser transmitidos por manual porque são adquiridos quando a pessoa deixa de observar o trabalho dos outros com uma prancheta imaginária na mão e precisa colocar as próprias mãos nele.

Talvez agora ela descubra que os incompetentes que ela julgava tão facilmente também precisavam lidar com contexto, informação incompleta, decisões alheias, limitações institucionais, imprevistos e aquele pequeno detalhe que costuma desaparecer nas críticas: a necessidade de realmente fazer.

É uma experiência curiosa.

Quando o trabalho é dos outros, tudo parece falta de inteligência.

Quando passa a ser nosso, surgem as circunstâncias.

A complexidade.

Os detalhes.

As exceções.

As dificuldades.

De repente, o mundo fica muito menos burro.

Talvez essa seja uma das formas mais eficientes de educação profissional.

Não uma palestra.

Não um curso.

Não um manual.

Apenas a transferência silenciosa da responsabilidade.

Porque há pessoas que passam anos dizendo que fariam melhor.

E há um momento maravilhoso em que a vida responde: “Então faça.”

E fecha a porta atrás de você.

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