A hora limpa #00469
Existe uma coisa curiosa nas conversas humanas: às vezes você oferece uma informação e recebe de volta um julgamento.
Estávamos falando sobre um curso. A pessoa já o havia feito e agora ajudava a organizá-lo. Perguntou se eu tinha lido todo o material. Respondi que sim, até o conteúdo disponibilizado na sexta-feira anterior. O que havia sido publicado naquele dia, ainda não.
Ela afirmou, categoricamente, que tinha colocado tudo na sexta-feira.
Não discuti. Disse apenas: tudo bem.
Depois, fui conferir a plataforma. O horário de publicação confirmava minha lembrança. Mas deixei a descoberta quieta. Não havia prêmio para quem estivesse certo naquela conversa. Nem certificado de excelência em cronologia de arquivos.
Seguimos falando sobre o curso. Ela comentou que o achara difícil, principalmente pela quantidade de material que precisava ler.
Concordei. Era mesmo bastante coisa.
Comentei, então, que preferia ler logo ao acordar, quando minha cabeça ainda estava limpa. Era uma estratégia minha, uma maneira de aproveitar um horário em que consigo me concentrar melhor.
E foi aí que a conversa pareceu mudar de temperatura.
A resposta veio acompanhada de um riso que me soou como deboche. Como se acordar e ler fosse uma extravagância de quem não tinha nada mais importante para fazer. Como se eu estivesse exibindo uma disponibilidade absurda, uma vida sem compromissos, uma liberdade quase ofensiva.
Sei que ela cria dois filhos sozinha. Imagino que sua rotina tenha exigências que não conheço. Não tenho interesse em diminuir o peso da vida de ninguém.
Mas também não gostaria que o peso da vida de alguém fosse usado como régua para medir a minha.
Eu não estava oferecendo uma competição de dificuldades. Não estava dizendo que minha rotina era melhor, mais leve ou mais organizada. Estava apenas compartilhando uma maneira de estudar.
Talvez seja esse o problema: algumas pessoas já não conseguem receber uma experiência sem compará-la com aquilo que lhes falta.
Uma informação vira provocação. Um hábito vira ostentação. Uma preferência pessoal parece uma crítica indireta à vida alheia.
E, de repente, não estamos mais conversando sobre um curso. Estamos disputando quem tem menos tempo, mais obrigações, mais cansaço, mais motivos para não conseguir.
Como se o sofrimento fosse uma credencial.
Como se estar sobrecarregado conferisse o direito de desconfiar da disponibilidade de quem encontrou uma maneira de fazer alguma coisa.
Fiquei pensando em quantas conversas poderiam ser diferentes se não estivéssemos tão ocupados em defender nossas circunstâncias.
Imagine poder dizer: eu leio de manhã.
E ouvir: que interessante, eu não conseguiria, meus horários são outros.
Ou dizer: tenho dificuldade com esse material.
E ouvir: também achei pesado, como você está organizando seus estudos?
Sem ironia. Sem competição. Sem a necessidade de provar que a própria vida é mais difícil ou que a experiência do outro é menos legítima.
Será que ainda existe esse tipo de pessoa?
Alguém que consegue ouvir sem procurar uma provocação escondida. Que compartilha sem transformar tudo em comparação. Que pode discordar sem diminuir. Que não precisa vencer uma conversa para sair dela em paz.
Imagino que exista.
Talvez não seja tão fácil encontrá-la porque aprendemos a conversar como quem se prepara para uma disputa. Entramos nas relações com nossas defesas prontas, nossas dores à mostra e uma coleção de conclusões sobre o que o outro quis dizer.
Às vezes, nem deixamos a frase terminar.
Eu gostaria de encontrar mais pessoas com quem fosse possível conversar sem precisar administrar ressentimentos que não são nossos.
Pessoas que possam dizer o que pensam sem humilhar, ouvir sem se sentirem ameaçadas e descobrir alguma coisa nova sem transformar a descoberta numa competição.
Gosto de compartilhar ideias. Gosto de aprender com as experiências alheias. Gosto de descobrir como outra pessoa organiza o próprio mundo, mesmo quando faz tudo de uma maneira muito diferente da minha.
Não quero que todos tenham a minha rotina, minhas preferências ou meus horários.
Quero apenas que possamos falar deles.
Hoje, por exemplo, continuo gostando de ler quando acordo. A cabeça está limpa, a casa ainda não começou a me chamar, e o mundo, por alguns instantes, não exige respostas.
É um pequeno intervalo de liberdade.
Não é uma provocação.
Não é uma demonstração de privilégio.
Não é uma competição.
É apenas a minha hora limpa.
E seria tão bom se pudéssemos deixar que cada pessoa tivesse a sua.
Comentários
Postar um comentário
🪐 Deixe seu rastro no caos... Ideias, dúvidas ou enigmas existenciais? Aproveite para comentar enquanto ainda estamos todos no mesmo plano.
Ajude outros a transcender também. ✨