A intenção não apaga o efeito #00473


Talvez algumas pessoas que se comportam dessa maneira não tenham a intenção consciente de prejudicar ninguém.

Talvez considerem suas atitudes normais. Talvez tenham aprendido que corrigir os outros de maneira brusca é sinal de competência, que compartilhar piadas internas fortalece os vínculos do grupo ou que ignorar uma manifestação é uma maneira eficiente de evitar discussões.

Talvez nunca tenham parado para pensar em como essas práticas são percebidas por quem está do outro lado.

Essa possibilidade merece ser considerada, mas não deve funcionar como desculpa permanente.

Não ter a intenção de humilhar alguém não significa que não seja necessário rever uma atitude que, repetidamente, produz constrangimento. A ausência de intenção maliciosa não torna irrelevantes os efeitos de uma conduta.

Em qualquer relação profissional, existe uma responsabilidade mínima de examinar a própria participação nos conflitos.

Se uma pessoa percebe que suas piadas sempre recaem sobre o mesmo colega, por que não se pergunta o que está acontecendo?

Se suas sugestões são sistematicamente apresentadas como correções de erros alheios, por que não considera a possibilidade de estar confundindo preferência com norma?

Se um colega parece cada vez mais retraído diante de suas manifestações, por que presume imediatamente que o problema está na personalidade dele?

E se alguém precisa pedir desculpas repetidamente depois de expressar opiniões profissionais, será que não vale a pena investigar as condições em que essas interações estão ocorrendo?

A reflexão honesta começa quando deixamos de perguntar apenas se podemos justificar o que fizemos e passamos a perguntar se era necessário fazer daquela maneira.

É possível encontrar uma justificativa para quase qualquer comportamento quando estamos determinados a não reconhecer nossa responsabilidade. O difícil é olhar para a situação sem a preocupação de preservar, a qualquer custo, a imagem que temos de nós mesmos.



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