À minha querida bolsonarista #00452
ALERTA: CONTEÚDO SENSÍVEL
Eu fiquei pensando em uma coisa que você me disse e se isso tem a ver com a forma como você se enxerga.
Você tem uma autoestima muito baixa. Talvez até mais baixa que a minha, e olha que eu sei o tamanho do problema que é a minha e o quanto tenho que rebolar para me melhorar.
Às vezes, eu acho que você não percebe a dimensão do efeito que pode produzir porque aprendeu, ao longo da vida, a acreditar que aquilo que pensa, sente ou faz tem pouca ou nenhuma importância.
Você diz que seu voto não vale nada, que não muda nada. E eu fico aqui pensando: se não vale mesmo, por que sai de casa para votar?
Mas ok. Pensamento meu. E eu penso tanto nas coisas que deve ser por isso que fico bem irada muitas vezes.
Porque eu penso tanto, reconheço tanto potencial em você. E é justamente por isso que insisto em dividir com você muito do que penso, leio e descubro.
E porque me importo.
Se não me importasse, tacaria um foda-se e sairia andando. Tenho muito o que fazer.
Eu não acho que você precise pensar como eu.
E, se assim fosse, logo não precisaria conversar com você, pois sei que não teria nenhum contraponto. Seria eu falando comigo mesma.
Mas é porque realmente acredito que aquilo que você pensa importa que tiro horas enormes do meu dia para conversar com você, pensar nas suas questões, procurar coisas, explicar, discutir, compartilhar o que estou aprendendo.
Faço isso quando poderia estar estudando sozinha, fazendo meus cursos, lendo ou simplesmente cuidando da minha própria vida.
Faço isso porque acredito em você.
Para mim, conhecimento só cumpre sua função quando circula. É uma maneira de manter a tocha acesa. E, no seu caso, faço isso porque enxergo em você uma capacidade que talvez você mesma ainda não enxergue. Você tem alta capacidade de multiplicar o conhecimento.
Você sente muito. Você é mulher. É muito perspicaz... Talvez porque já tenha vivido, na própria pele, o que acontece quando uma mulher começa a acreditar que pode mais.
Você tentou terminar seus estudos. Tentou crescer. Tentou ocupar um espaço que talvez, durante muito tempo, tenham feito você acreditar que não era para você.
E você ouviu do próprio marido: “Olha aí, agora acha que é esperta”.
Eu não esqueço essa frase.
Porque ela diz muito mais do que parece.
Não é simplesmente alguém dizendo que você está se achando.
E não esqueço também do gesto que ele tem quando te maltrata: compra uma marmita.
Você se contenta e fica feliz com uma marmita.
Tudo bem. É simbólico e tem sua importância. Mas eu acho que você merece mais.
E eu vejo que alguém tenta sempre colocar você de volta no lugar em que acredita que você deveria permanecer.
Como se estudar, aprender, pensar melhor, querer mais para si ou perceber a própria capacidade fosse uma espécie de arrogância.
E não só isso.
A pessoa sabe que, na hora em que você se levantar, é uma gigante que acordou, que vai fazer efeito em grandes escalas.
Há muitas energias ruins querendo que você fique exatamente onde está e assuma um discurso de coitadismo, de vitimismo.
Eu acho que você precisa perceber o quanto isso pode ter entrado dentro de você.
Talvez uma parte de você ainda escute essa voz quando começa a se sentir capaz.
Talvez, em algum lugar, ainda exista essa ideia de que não é para você saber demais, querer demais, questionar demais, ocupar demais.
E é justamente por isso que eu fico tão insistente quando compartilho coisas com você.
Não estou tentando provar que sei mais.
Estou tentando devolver para você uma coisa que talvez tenham tirado aos poucos: a certeza de que a sua inteligência tem valor.
Quando passo horas conversando com você, procurando informações, pensando nas suas questões, compartilhando o que estou estudando, não estou fazendo isso porque acho que você é incapaz de chegar às suas próprias conclusões.
Aliás, escrever isso aqui me tomou bastante energia vital. Eu deveria estar me recuperando das minhas dores, mas faço isso porque acredito que você é capaz. Muito mais do que talvez você mesma acredite.
Por isso eu não consigo simplesmente ouvir você dizer que o seu voto não vale nada e concordar.
Ele vale.
O seu voto participa da escolha de quem vai ocupar espaços de poder e tomar decisões que afetam a vida de milhões de pessoas.
O meu também.
Você pode não enxergar a sua própria força, mas isso não significa que ela não exista.
E eu queria que você entendesse outra coisa: você não está sozinha quando vota.
Existe muita gente, inclusive gente que você provavelmente nunca vai conhecer, trabalhando todos os dias para que mulheres possam viver sem violência, para que pessoas negras não sejam tratadas como inferiores, para que pessoas pobres tenham direitos, para que trabalhadores tenham dignidade, para que crianças tenham educação, para que pessoas tenham acesso à saúde, moradia e oportunidades.
Existe gente lutando para que pessoas que historicamente tiveram menos voz possam finalmente ter alguma.
Eu faço parte desse mundo.
E, quando compartilho coisas com você, quando estudo, quando procuro entender, quando converso durante horas sobre esses assuntos, não estou fazendo isso apenas por mim. Estou tentando participar de alguma coisa maior do que a minha própria vida.
É por isso que eu gostaria tanto que você percebesse que você também pode fazer parte disso.
Você não precisa ser uma militante. Não precisa conhecer todos os conceitos. Não precisa concordar comigo em tudo. Não precisa abandonar a sua maneira de pensar.
Mas eu gostaria que você percebesse que a sua vida, a sua história e as dificuldades que você enfrentou não estão separadas da vida das outras pessoas.
Eu conheço a sua história.
Sei das dificuldades que você enfrenta por ser mulher. Sei o quanto você já foi maltratada pelo machismo.
Sei das suas dificuldades por não ter emprego, da sua dependência, das situações em que você precisou engolir coisas que não deveria ter precisado engolir.
Por isso, às vezes, eu fico tentando entender como alguém que conhece tão de perto determinadas formas de violência pode acabar apoiando ideias que, na minha leitura, ajudam a mantê-las de pé.
E eu não digo isso para te acusar.
Digo porque existe uma contradição que eu gostaria muito que você tivesse liberdade para olhar.
Eu não estou dizendo que você é uma pessoa preconceituosa ou racista porque fez determinada escolha política. Estou dizendo que algumas ideias e projetos políticos podem produzir consequências que atingem de maneira muito diferente pessoas que já estão em posições vulneráveis. E eu não consigo tratar isso como uma questão distante da nossa vida.
É aí que os nossos “everyday white people problems” deixam de ser suficientes para explicar o mundo.
Porque política não fica do lado de fora da nossa vida.
Ela chega no emprego que existe ou não existe. Na proteção que uma mulher tem ou não tem. Na maneira como a violência é enfrentada. No acesso à saúde, à educação e à moradia. Na possibilidade de uma pessoa trabalhar e ainda assim conseguir viver com dignidade. E também nas condições que permitem que nós continuemos podendo discordar, votar, falar, protestar, acreditar e escolher.
É por isso que eu não consigo enxergar democracia apenas como o direito de cada pessoa apertar um botão.
Para mim, democracia também é a construção das condições para que pessoas diferentes tenham voz e para que ninguém precise aceitar a violência, a humilhação ou a exclusão como destino.
E talvez seja justamente aí que esteja uma parte da nossa divergência.
Eu consigo compreender que você tenha aprendido determinadas coisas. Pessoas podem reproduzir ideias do próprio sistema que as feriu. Nem sempre fazem isso porque pararam conscientemente para pensar em todas as consequências. Às vezes, simplesmente aprenderam aquele modo de enxergar o mundo.
Quando você para para analisar as coisas comigo, eu vejo coerência no que você diz. É justamente por isso que me assusta quando, na hora da escolha política, você acaba fazendo o contrário daquilo que eu vejo você defender em outras situações.
Eu acredito que isso pode mudar.
Mas precisa existir disposição para olhar para aquilo que aprendemos e perguntar:
“Isso realmente é meu ou eu apenas aprendi a pensar assim?”
E eu também quero deixar uma coisa muito clara.
Eu não quero que você pense como eu porque eu penso diferente de você.
Você tem direito à sua opinião, à sua escolha e ao seu voto. Eu não quero uma amizade baseada em concordância política.
Mas existe uma diferença enorme entre discordar de mim e defender conscientemente princípios que entram em choque com os meus.
Se você me disser que não percebe o alcance daquilo que está apoiando, eu posso continuar conversando com você.
Posso continuar tentando levantar outras perspectivas, porque talvez a gente subestime mesmo o próprio poder e as consequências daquilo que ajuda a escolher.
E eu parto da premissa de que nossos princípios levam nosso voto à urna e ajudam a afetar a vida de muitos.
Agora, se você me disser:
“Eu sei exatamente o que estou apoiando. Sei quais são as consequências e, mesmo assim, é isso que eu quero. Eu quero que as armas dos bandidos venham parar na mão das pessoas, quero menos ministérios cuidando de assuntos importantes, menos investigação de corrupção, mais desvio de verbas, principalmente de vacinas, pois elas não servem para nada, mais polícia na rua matando quem eu acho que deve morrer, LGBTs, prostitutas, trans, pretos, indígenas, obesos e pobres. Eu quero um governo que reduza investimentos do Nordeste, porque são pessoas que merecem morrer na seca e na fome, bando de jagunços vagabundos. Eu quero que os Estados Unidos metam a mão no território brasileiro, saqueiem nossas riquezas, transformem esse espaço em espaço de exploração de petróleo e zona de guerra. Povo horroroso esse. Não quero que os impostos sejam investidos em direitos para o povo que os paga. Quero mesmo que cada um se lasque e, se ficar doente, que morra: não sou coveira! Ah, e dinheiro para reduzir violência doméstica? Nada. Vagabundas, deveriam ficar em casa, cuidando da família e do lar. Nem direito a voto, nem a trabalhar fora, nem a viajar sozinhas elas precisam ter. São propriedades de seus maridos, que podem espancá-las, estuprá-las, traí-las com as novinhas, sempre que pintar um clima. Quanto mais novinha, melhor, porque não reclamam e são bem fechadinhas...”
Escrevo tudo isso com o estômago embrulhado. Mas é isso que a família Bolsonaro defende e representa. Estou sendo sintética. Nem falei das alianças da fé e das militares...
Mas, se você me disser: “Eu estou do lado deles”, minha conversa muda completamente, porque penso que, nesse caso, não estamos diante de alguém que acha que o próprio voto não importa.
Estamos diante de duas pessoas que sabem que o voto importa e que chegaram a conclusões políticas diferentes.
E eu preciso ser honesta com você: nesse cenário, a minha relação com você não pode continuar, porque não consigo continuar tratando como uma simples divergência de opinião aquilo que, para mim, envolve racismo, preconceito, direitos fundamentais e a preservação da democracia.
E é aqui que eu preciso ser ainda mais clara.
Você pode escolher diferente de mim.
O que eu não consigo fazer é fingir que todas as escolhas políticas são apenas diferenças de opinião e que, portanto, tanto faz o que cada uma delas defende.
Para mim, não dá no mesmo apoiar políticas que ampliam direitos e proteção social ou apoiar projetos que, quando levados às últimas consequências, significam menos direitos para determinadas pessoas.
Não dá no mesmo defender ou relativizar racismo, violência contra mulheres, armas, militarização, milícias ou a retirada de direitos que foram conquistados ao longo de décadas.
E, principalmente, não dá no mesmo defender a democracia ou considerar aceitável a volta de uma ditadura.
Eu não estou dizendo que toda pessoa que vota à direita necessariamente defende cada uma dessas coisas. Estou falando de uma escolha consciente. Se você me disser que sabe exatamente quais pessoas, ideias e projetos está apoiando, conhece suas posições sobre esses assuntos e, mesmo assim, considera que é esse o caminho que quer ajudar a construir, eu preciso aceitar que existe entre nós uma diferença muito mais profunda do que uma simples preferência eleitoral.
Porque eu não posso caminhar para qualquer lugar só para não caminhar sozinha.
Existem valores dos quais eu não abro mão.
Eu quero estar do lado de quem amplia direitos, não de quem decide quem merece tê-los. Quero estar do lado de quem protege a democracia, não de quem trata a democracia como algo descartável quando o resultado não agrada. Quero estar do lado de quem entende que liberdade não é apenas poder escolher no mercado, mas também ter condições concretas para viver, estudar, trabalhar, cuidar da saúde, ter uma casa e não ser submetida à violência.
E isso vale inclusive quando estou falando de pessoas que pensam diferente de mim.
Eu não quero destruir você por discordar de mim. Não quero te humilhar, te chamar de ignorante ou fazer você se sentir menor.
Muito pelo contrário.
Talvez eu esteja insistindo tanto porque me recuso a acreditar que aquela mulher que ouviu “agora acha que é esperta” precise continuar ouvindo, dentro da própria cabeça, que não é capaz de pensar por si mesma.
Eu quero que você pense.
Quero que você questione.
Quero que você leia coisas que contradigam aquilo em que já acredita.
Quero que você tenha coragem de descobrir que estava errada quando estiver errada, assim como eu preciso ter coragem para fazer o mesmo.
Porque é isso que eu entendo por liberdade.
Mas liberdade também significa assumir a responsabilidade pelas escolhas que fazemos.
Então, se depois de olhar para tudo isso você disser: “Eu sei. Eu entendo. É exatamente isso que eu quero apoiar”, eu vou respeitar o fato de que essa escolha é sua.
Mas ela terá consequências para a nossa relação.
Não como castigo.
Não como chantagem.
Não porque eu ache que sou melhor do que você.
É simplesmente porque eu também tenho o direito de escolher com quem caminho e quais valores quero colocar no centro da minha vida.
Eu posso gostar de você e, ainda assim, não conseguir continuar caminhando ao seu lado da mesma maneira.
Posso reconhecer tudo o que existe de bom em você e, ao mesmo tempo, perceber que estamos escolhendo caminhos políticos incompatíveis.
E talvez nossos caminhos precisem se distanciar.
Não porque eu tenha deixado de enxergar você.
Talvez justamente porque eu enxergo.
Eu enxergo a mulher que tentou estudar e ouviu que estava “se achando esperta”.
Enxergo a mulher que tantas vezes teve sua capacidade diminuída.
Enxergo alguém que tem muito mais força do que imagina.
E é exatamente por enxergar isso que eu não quero ver você entregando essa força de volta para quem quer decidir por você.
Eu vou continuar seguindo.
Vou continuar estudando, aprendendo, trabalhando, participando, tentando entender o mundo e tentando fazer alguma coisa para que ele seja um pouco mais justo para as pessoas que têm menos poder.
Eu preciso seguir além.
E, se você escolher outro caminho conscientemente, talvez, em algum momento, os nossos caminhos se distanciem.
Isso vai doer, porque você importa para mim.
Mas eu não posso ficar parada no meio do caminho para manter uma proximidade que exige que eu silencie aquilo em que acredito.
Eu quero que você escolha livremente.
Só quero que, dessa vez, quando escolher, você saiba que está escolhendo.
E que nunca mais diga que o seu voto não vale nada.
Ele vale.
Você vale.
E justamente por isso eu espero que a escolha seja verdadeiramente sua.
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