A pequena humilhação que todos fingem não perceber #00467

Há uma dimensão particularmente cruel nas situações em que a desqualificação vem acompanhada de piadinhas internas.

O trabalho de alguém é alterado. Uma decisão sua é desconsiderada. Sua contribuição é substituída. Em seguida, surgem comentários, risos ou olhares compartilhados entre outras pessoas.

Talvez ninguém mencione seu nome. Talvez não haja uma ofensa explícita. Talvez, se questionados, os envolvidos afirmem que estavam falando de outra coisa, que era apenas uma brincadeira ou que não havia motivo para se sentir atingido.

Mas a comunicação humana não se limita às palavras pronunciadas. O contexto, o momento, os gestos e a cumplicidade entre os participantes também comunicam.

Uma piada pode ser uma manifestação genuína de humor entre pessoas que se respeitam. Também pode servir para estabelecer hierarquias, marcar quem pertence ao grupo e indicar quem pode ser transformado em motivo de diversão.

A diferença não está apenas no conteúdo da brincadeira. Está na relação entre as pessoas, na repetição, na assimetria e, principalmente, na possibilidade de todos ocuparem posições equivalentes sem serem humilhados.

Quando alguns riem e outro precisa suportar o constrangimento em silêncio, é necessário perguntar: quem está se divertindo e às custas de quem?

Quando o humor depende de alguém ser colocado em uma posição inferior, não basta invocar a liberdade de brincar para encerrar a discussão.

A expressão “era só uma brincadeira” não é uma espécie de salvo-conduto moral. Não transforma automaticamente uma atitude desrespeitosa em algo aceitável. Tampouco obriga a pessoa atingida a fingir que não percebeu o que aconteceu.

Há brincadeiras que aproximam. Há brincadeiras que aliviam a tensão. E há aquelas que permitem que alguém agrida simbolicamente outra pessoa enquanto preserva para si a confortável posição de quem, supostamente, não fez nada de errado.

Afinal, se a pessoa atingida reclama, é acusada de não ter senso de humor. Se permanece em silêncio, os outros interpretam sua reação como autorização para continuar.

É uma situação conveniente para quem humilha e profundamente desgastante para quem precisa conviver com isso.

A brincadeira não deixa de ser cruel apenas porque quem a faz consegue rir dela.


continua...





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