Estatísticas incômodas#00448

Entro num departamento novo e descubro que a rebeldia também tem níveis hierárquicos.

No departamento anterior, havia quem passasse três anos explicando por que os outros eram incompetentes. Neste, a pessoa resolveu sofisticar o método: ela interrompe.

Fala por cima da sua fala, encerra o assunto antes que ele comece, impõe a conclusão e, quando percebe que você ainda está tentando conversar, aumenta a dose de certezas. 

O diálogo é uma espécie de atividade suspeita. 

Mesmo quando concorda com você, discorda do direito de você ter terminado a frase.

O assunto da vez são as estatísticas.

Estatísticas têm esse péssimo hábito de guardar memória.

Você coleta informações, organiza, cruza dados, observa frequências, identifica padrões e, de repente, aquilo que parecia apenas uma pilha de números começa a contar uma história.

E histórias têm consequências. 

Podem mostrar onde estão os problemas, quem está sendo atendido, quem não está, o que funciona, o que falha, onde é preciso investir, o que precisa mudar.

Em uma instituição pública, informação bem coletada pode orientar decisões, políticas e planejamento.

Ou pode dar trabalho.

E há pessoas para quem esse segundo aspecto é decisivo.

A solução, então, é simples: se a informação der trabalho, suprima-se a informação.

Não é exatamente negar a realidade. É uma operação mais elegante. Basta não perguntar. Não registrar. Não cruzar. Não organizar. Não produzir a estatística.

O problema desaparece com uma eficiência administrativa impressionante.

Quando questionada sobre por que determinada coisa não é feita, vem a resposta:

“Porque eu logo vou embora.”

Então ela mexe no cabelo.

Diz que pretende sair do departamento.

É seu estilo de vida, explica. Ficar cinco anos em um lugar e partir.

A sala fica em silêncio.

Talvez porque ninguém saiba exatamente o que responder quando uma pessoa transforma a própria impermanência em argumento para não assumir responsabilidade pelo lugar onde está.

É uma espécie curiosa de filosofia profissional.

Não preciso construir porque não vou morar aqui.

Não preciso organizar porque outro vai usar.

Não preciso deixar dados melhores porque provavelmente alguém continuará o trabalho depois de mim.

Não preciso enfrentar o problema porque meu contrato com o futuro é de curta duração.

E há uma ironia ainda maior.

Quando cheguei, disseram que ela estava perdida.

Hoje começo a desconfiar de que “estar perdido” pode ser uma expressão bastante conveniente para algumas situações.

Há pessoas realmente perdidas. Não sabem por onde começar, precisam de orientação, desconhecem os caminhos. Essas podem aprender.

Mas existe outro tipo.

É o perdido que encontrou exatamente o lugar onde não precisa responder por nada.

Fica perdido por anos.

Não porque não tenha caminho, mas porque qualquer caminho desemboca em responsabilidade.

E responsabilidade exige aquilo que estatística também exige: olhar para os dados.

É preciso saber o que está acontecendo.

É preciso registrar.

É preciso comparar.

É preciso descobrir o que os números estão dizendo quando ninguém mais está com vontade de ouvi-los.

Talvez por isso algumas pessoas tenham tanta dificuldade com estatísticas.

Não é necessariamente porque não gostam de números.

Talvez porque números, quando bem tratados, sejam inconvenientemente objetivos.

Eles não se intimidam com interrupções.

Não podem ser calados falando mais alto.

Não mexem nervosamente no cabelo quando são questionados.

Não anunciam que vão embora de cinco em cinco anos.

E, principalmente, não precisam concordar com ninguém para continuar existindo.

Eles ficam ali.

Registrados.

Esperando alguém suficientemente interessado em olhar.

No fim, talvez haja uma diferença fundamental entre estar perdido e não querer se encontrar.

O primeiro precisa de um mapa.

O segundo prefere declarar que não gosta de mapas.

E continuar recebendo o salário tranquilamente enquanto alguém, algum dia, descobre onde foi parar o trabalho.

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