Fui chamada de xereta #00460


Desde o dia 6 de agosto, data da minha transferência para o novo setor de trabalho, já fui chamada de besta, gorda e xereta. 

Três palavras. Três adjetivos.

Três situações. Três incômodos de naturezas diferentes.

As duas primeiras me desagradaram, evidentemente. 

Não há nada de sofisticado em usar a aparência de alguém ou sua decisão de não gastar sessenta reais em um prato de comida como pretexto para desqualificá-la. 

São manifestações de uma grosseria que diz mais sobre a educação de quem as pratica do que sobre quem as recebe. 

Incomodam, mas não me definem.

A terceira palavra, porém, ficou.

Xereta.

Segundo o dicionário, xereta é quem se mete em assuntos alheios, quem bisbilhota, quem é intrometido, indiscreto, abelhudo, enxerido. 

Em determinados contextos regionais, pode designar também alguém que bajula, que procura agradar para obter alguma vantagem.

Uma palavra pequena, mas com uma coleção respeitável de desqualificações.

O que me incomodou não foi simplesmente ter sido chamada assim. 

Foi quem disse, a proximidade que existia entre nós e, sobretudo, o contexto em que a palavra apareceu.

Eu havia chegado a um novo ambiente de trabalho com a disposição de quem pesquisa, observa, pergunta, procura compreender os processos, estabelece relações entre informações e tenta encontrar respostas. 

Não sei trabalhar apenas olhando para uma superfície. 

Quando alguma coisa me interessa, quero entender como funciona, de onde veio, para onde vai e o que se pode fazer com aquilo que descubro.

Esse é o meu jeito de trabalhar. Pergunto, investigo, estudo. Sou curiosa porque quero compreender. Sou proativa porque não me contento em esperar que todas as respostas apareçam prontas diante de mim. Interajo.

E aqui está o ponto que me entristece: a pessoa que me chamou de xereta estava mais próxima de mim e, em alguma medida, também se beneficiou dessa disposição. 

Minha curiosidade e minha iniciativa foram úteis. 

Minha capacidade de procurar informações, compreender situações e me movimentar para encontrar respostas não parecia ser um problema quando contribuía para alguma coisa.

Mas basta mudar o enquadramento para que a qualidade vire defeito. 

A curiosidade se transforma em bisbilhotice. 

A iniciativa vira intromissão. 

A vontade de compreender passa a ser interpretada como desejo de se meter na vida alheia.

Não sei se a palavra foi um ato falho, uma provocação ou apenas uma escolha infeliz. 

Não tenho como conhecer a intenção exata de quem a pronunciou, mas não consigo deixar de pensar que, às vezes, uma palavra escapa e deixa à mostra uma percepção que até então permanecia disfarçada.

Talvez não tenha sido nada disso. 

Talvez tenha sido apenas uma palavra lançada sem reflexão.

Ainda assim, o efeito permanece, porque não ouvimos as palavras isoladamente.

Ouvimos também o que elas parecem dizer sobre o lugar que ocupamos na vida de quem as pronuncia.

E eu me perguntei: era assim que aquela pessoa me enxergava?

A questão não é exigir que todos gostem de mim, apreciem meu jeito de trabalhar ou concordem com minhas perguntas. 

Não preciso dessa unanimidade, nem a considero desejável. 

A questão é outra. 

É perceber que uma característica que pode contribuir para o trabalho também pode ser reduzida, por uma palavra, a uma caricatura de personalidade.

Há uma diferença considerável entre ser curiosa e ser indiscreta. Entre investigar um problema e invadir a privacidade de alguém. Entre fazer perguntas para compreender um processo e bisbilhotar a vida alheia. 

A primeira atitude pode produzir conhecimento; a segunda pode violar limites. 

Confundir as duas coisas não é uma interpretação inevitável. 

É um julgamento que precisa ser examinado à luz dos fatos.

Se ultrapassei algum limite, ele pode ser apontado. 

Se fiz uma pergunta inconveniente, ela pode ser discutida. 

Se existe uma conduta minha que precisa ser corrigida, prefiro saber qual é, concretamente. 

Há nisso uma possibilidade de aprendizado que não existe em um rótulo depreciativo.

Chamar alguém de xereta não esclarece o que essa pessoa fez de errado. Apenas a coloca em uma posição inferior, como se sua curiosidade fosse, por definição, suspeita.

E talvez seja justamente isso que me tenha chateado tanto. Não a possibilidade de ter cometido um erro, porque ninguém está imune a eles, mas a possibilidade de que uma disposição que considero valiosa tenha sido recebida como um defeito de caráter por alguém de quem eu esperava outra leitura.

Anteriormente, eu havia sido chamada de besta por não querer pagar sessenta reais por um prato de comida que a pessoa não queria comer e me ofereceu como se eu estivesse morrendo de fome e essa seria a última oportunidade de me alimentar.

Fui chamada de gorda ao ser identificada como a mulher de um colega. Ele veio me cumprimentar calorosamente e sua expressão aguçou a curiosidade de quem não está acostumado com as demonstrações alheias de afeto. 

Sim. Nessas situações, a grosseria foi evidente. 

Na terceira, porém a ofensa encontrou um lugar mais delicado: minha maneira de pensar, de trabalhar e de me relacionar com o conhecimento.

Não quero me tornar menos curiosa para parecer mais discreta. 

Tampouco quero usar a curiosidade como desculpa para desrespeitar limites. 

Quero continuar aprendendo a distinguir uma coisa da outra, porque maturidade não é insistir que estamos sempre certos. 

É ter condições de rever a própria conduta sem entregar aos outros o direito de definir quem somos por meio de uma palavra.

Continuarei perguntando quando precisar compreender. 

Continuarei pesquisando quando houver algo a investigar. 

Continuarei tomando iniciativas quando enxergar uma possibilidade de contribuir. 

E, se houver limites que eu não tenha percebido, espero que sejam apresentados com clareza, não disfarçados de julgamento pessoal.

O que me entristece é descobrir que a proximidade nem sempre significa que somos vistos com a consideração que imaginávamos existir. 

Às vezes, ajudamos, compartilhamos o que sabemos, nos colocamos à disposição e acreditamos estar construindo uma relação de confiança. 

Depois, uma palavra nos obriga a reconsiderar essa impressão.

Não sei se fui realmente vista como xereta ou se a palavra disse mais sobre aquele instante do que sobre a opinião que a pessoa tem de mim. 

Não vou transformar uma hipótese em certeza. Mas também não vou fingir que não ouvi.

Fui chamada de xereta.

E continuo pensando na palavra, não porque ela tenha o poder de me definir, mas porque me fez pensar sobre a diferença entre ser útil e ser respeitada, entre ter iniciativa e ter liberdade para exercê-la, entre a proximidade que compartilhamos e a consideração que imaginamos receber.

A palavra ficou. A confiança, essa, já não ocupa exatamente o mesmo lugar.

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