Não vou viver no desconforto que me causam os outros #00461

Há situações que duram poucos segundos, mas continuam acontecendo dentro de nós por horas, às vezes por dias. 

Uma palavra, um comentário, uma expressão atravessada. 

Algo que alguém diz e que, por alguma razão, encontra uma fresta por onde entrar e se instalar.

A conversa termina, cada um segue seu caminho, mas nós ficamos. Voltamos à cena, examinamos o tom de voz, procuramos significados, reconstruímos o diálogo. Pensamos no que foi dito, no que talvez tenha sido pensado e no que poderia ter sido dito de outra maneira. A mente transforma um instante em investigação, e a investigação, quando não encontra respostas, transforma-se em ruminação.

Queremos compreender. Queremos saber se houve intenção, se a palavra escapou, se existe alguma verdade escondida naquele comentário. Queremos, talvez, recuperar a sensação de segurança que tínhamos antes de ouvir aquilo.

Mas existe uma armadilha nesse esforço: acreditar que precisamos descobrir o que se passa na cabeça de outra pessoa para voltar a ficar bem.

Não precisamos.

Podemos reconhecer que algo nos incomodou sem transformar o desconforto em uma missão. Podemos considerar uma hipótese sem tratá-la como verdade. Podemos admitir que uma relação mudou de significado para nós sem exigir uma explicação imediata para cada detalhe.

Nem sempre saberemos o que o outro quis dizer. E, mesmo quando soubermos, talvez essa informação não mude nada do que precisamos fazer.

A palavra foi pronunciada. O efeito existiu. Isso merece ser reconhecido. Mas o acontecimento não precisa ganhar o direito de ocupar todos os espaços disponíveis dentro de nós.

Há uma diferença entre refletir sobre uma experiência e continuar vivendo dentro dela. Refletir nos permite compreender, aprender, estabelecer limites e tomar decisões. Permanecer mentalmente na cena, repetindo as mesmas perguntas sem encontrar informações novas, apenas prolonga o contato com aquilo que nos feriu.

Em algum momento, precisamos interromper o julgamento. Não necessariamente porque chegamos a uma conclusão, mas porque reconhecemos que continuar investigando já não está nos ajudando.

Podemos voltar às nossas atividades, procurar aquilo que nos interessa, escutar uma música, ler um livro, caminhar, conversar sobre outros assuntos. Não como quem foge de um problema, mas como quem se recusa a transformar um episódio desagradável no acontecimento mais importante da própria existência.

A vida continua oferecendo coisas que merecem nossa atenção. Ideias que ainda não conhecemos, lugares que gostaríamos de visitar, conhecimentos que podemos adquirir, trabalhos que nos desafiam, pessoas com quem podemos construir relações melhores, pequenos prazeres que não precisam de justificativa.

É uma pena desperdiçar tudo isso tentando decifrar uma pessoa.

Também não precisamos confundir serenidade com ingenuidade. Podemos continuar atentos. Podemos rever a confiança que depositamos em alguém, mudar a maneira como nos relacionamos e estabelecer limites mais claros. Não precisamos fingir que nada aconteceu para provar que superamos alguma coisa.

A maturidade está em conseguir olhar para o episódio sem permitir que ele determine o nosso estado de espírito por tempo indeterminado.

Se houver algo a aprender, aprenderemos. Se houver algo a corrigir, corrigiremos. Se houver uma relação que precise ser revista, faremos isso com a cabeça mais fria. E, se não houver nada que possamos resolver, teremos de aceitar que algumas perguntas permanecerão sem resposta.

Não é confortável. Mas é libertador perceber que a ausência de uma explicação não nos condena à inquietação permanente.

Não somos obrigados a transformar cada decepção em uma tese, cada comentário em um enigma ou cada comportamento alheio em um estudo interminável. A curiosidade é uma qualidade quando nos aproxima do conhecimento. Quando passa a nos aprisionar em uma situação que não podemos esclarecer, talvez seja hora de direcioná-la para outro lugar.

Há muito mais a descobrir no mundo do que nas intenções que tentamos adivinhar.

Por isso, quero aprender a reconhecer o que me incomoda sem alimentar indefinidamente o incômodo. Quero ter discernimento para distinguir o que merece uma atitude do que merece apenas distância. Quero continuar capaz de confiar, mas sem fechar os olhos. Quero aprender com as decepções sem fazer delas minha companhia habitual.

Acima de tudo, quero me lembrar de que minha vida não pode ficar suspensa à espera de que outra pessoa se explique, se arrependa, reconheça um erro ou confirme uma suspeita.

O outro pode ter provocado o desconforto. A decisão de como cuidar de mim depois disso precisa voltar para as minhas mãos.

Não vou gastar o dia inteiro tentando descobrir o que uma palavra quis dizer. Não vou permitir que uma situação desagradável ocupe o lugar de todas as coisas boas que ainda posso viver. Não vou confundir pensar sobre o que aconteceu com a obrigação de continuar pensando nisso.

Há coisas que precisam ser enfrentadas. Há coisas que precisam ser compreendidas. E há coisas que precisam, simplesmente, perder importância.

Não porque não tenham doído, mas porque existem limites para o espaço que merecem ocupar.

Não posso escolher todas as palavras que chegam até mim. Posso, porém, aprender a não fazer delas a voz que me acompanha o dia inteiro.

Aconteceu. Incomodou. Talvez tenha deixado uma lição.

Agora, a vida está me esperando do lado de fora dessa cena.

E eu pretendo voltar para ela.

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