Quando a gente começa a se calar no trabalho #00463

Tenho refletido sobre algumas situações que venho enfrentando no meu atual ambiente de trabalho. À primeira vista, podem parecer episódios pequenos, sem maior importância. Uma alteração em um texto, uma opinião desconsiderada, uma piada compartilhada entre colegas. Coisas que, vistas isoladamente, talvez fossem facilmente ignoradas. O problema é quando deixam de ser episódios isolados e passam a compor uma dinâmica recorrente, capaz de desgastar a confiança e fazer alguém questionar o próprio lugar naquele ambiente.
Recentemente, por exemplo, redigi uma mensagem institucional e fiz escolhas linguísticas que considerei adequadas. O texto foi encaminhado a uma assistente social, que o modificou antes de enviá-lo, aparentemente por considerar sua formulação mais correta. Uma das alterações foi justamente a inclusão de uma expressão que eu havia deliberadamente evitado. Não se trata de afirmar que um texto não possa ser revisado, nem de reivindicar que minhas escolhas sejam inquestionáveis. O que me chamou a atenção foi reconhecer, naquele episódio, algo que tenho vivenciado de outras maneiras: alguém solicita minha contribuição, mas depois desfaz o que fiz sem que haja, necessariamente, uma conversa sobre as razões da mudança. E, em algumas dessas situações, ainda há espaço para piadinhas internas.
Em outros momentos, tenho a sensação de que minhas manifestações são tão desconsideradas que acabo pedindo desculpas por ter me pronunciado. Como se expressar uma opinião, apresentar um argumento ou tentar contribuir para o trabalho coletivo fosse, por si só, uma inconveniência que precisasse ser reparada.
É difícil explicar o desgaste provocado por essas experiências sem correr o risco de parecer excessivamente sensível ou incapaz de lidar com críticas. Afinal, todos estamos sujeitos a erros, revisões e discordâncias. Trabalhar em equipe exige flexibilidade, disposição para aprender e capacidade de reconhecer quando estamos equivocados. Não espero que concordem sempre comigo, tampouco considero que minhas decisões devam ser preservadas apenas porque partiram de mim.
O que me incomoda é outra coisa: a impressão de que, em determinadas relações profissionais, o diálogo cede lugar à desconsideração; a divergência deixa de ser uma oportunidade de troca e se transforma em uma demonstração silenciosa de superioridade; e o humor passa a funcionar como uma forma de cumplicidade entre alguns, enquanto outra pessoa fica em uma posição desconfortável.
Quando essas situações se repetem, começamos a nos perguntar se vale a pena continuar nos manifestando. Passamos a medir as palavras, a hesitar antes de apresentar uma ideia e a rever nossas próprias escolhas não apenas por critérios técnicos, mas também pelo receio de como serão recebidas. Aos poucos, algo que deveria fazer parte da vida profissional — pensar, propor, argumentar, discordar — pode se tornar uma fonte de apreensão.
Talvez o aspecto mais preocupante seja perceber que, em vez de questionar a maneira como estamos sendo tratados, começamos a questionar o direito de nos posicionar. Em vez de avaliar objetivamente se cometemos um erro, passamos a presumir que devemos ter feito algo errado simplesmente porque alguém nos contrariou, modificou nosso trabalho ou reagiu com ironia ao que dissemos.
Não escrevo estas linhas para reivindicar infalibilidade, exigir aprovação ou transformar qualquer discordância em ofensa. Escrevo porque acredito que existe uma diferença fundamental entre corrigir e desautorizar, entre discordar e ridicularizar, entre revisar o trabalho de alguém e transmitir, por meio de pequenas atitudes, que sua contribuição não merece consideração.
Foi pensando nessas experiências que comecei a refletir sobre as formas discretas de desqualificação que podem surgir no ambiente de trabalho. Sobre as atitudes que parecem pequenas para quem as pratica, mas que, quando reiteradas, podem comprometer a confiança, a espontaneidade e o sentimento de pertencimento de quem as recebe.
Talvez algumas pessoas reconheçam nessas situações experiências que também viveram. Outras talvez se reconheçam, com algum desconforto, entre aquelas que as provocam, muitas vezes sem sequer se perguntar sobre os efeitos de seu comportamento.
É justamente por isso que considero importante falar sobre o assunto. Não para alimentar ressentimentos ou procurar culpados a qualquer custo, mas para propor uma reflexão sobre a maneira como nos relacionamos profissionalmente e sobre o que fazemos quando temos o poder de corrigir, alterar, contestar ou simplesmente ignorar a contribuição de outra pessoa.
Afinal, um ambiente de trabalho respeitoso não é aquele em que ninguém discorda de ninguém. É aquele em que ninguém precisa abrir mão da própria voz para conseguir conviver com os demais.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Hostilidades gratuitas...#00218

Teses, antíteses, sínteses #00220

Especialista em microgerenciamento - foi aqui que chamaram um? #00201