Quando se começa a pedir desculpas por existir #00469
Quando a pessoa começa a pedir desculpas por existir profissionalmente
Talvez a consequência mais preocupante dessas situações não seja o episódio em si, mas aquilo que pode acontecer com a pessoa submetida a elas ao longo do tempo.
No início, ela tenta esclarecer. Explica por que tomou determinada decisão, apresenta seus argumentos, procura mostrar que sua escolha não foi aleatória.
Depois, percebe que suas explicações são ignoradas ou recebidas com impaciência. Suas contribuições são modificadas sem diálogo. Suas manifestações parecem provocar desconforto, e as piadas reforçam a impressão de que falar pode custar caro.
Então ela começa a se adaptar.
Passa a pensar duas vezes antes de apresentar uma ideia. Evita fazer observações que poderiam ser úteis. Revisa excessivamente aquilo que escreve, não apenas para garantir a qualidade do trabalho, mas para tentar antecipar a reação dos colegas.
Quando discorda, suaviza tanto a própria posição que quase a abandona. Quando percebe que foi desconsiderada, procura uma maneira de não parecer incomodada. E, em algumas ocasiões, pede desculpas, mesmo sem conseguir identificar exatamente o que fez de errado.
Pede desculpas por ter falado. Por ter insistido em uma ideia. Por ter apresentado uma solução diferente. Por ter demonstrado incômodo diante de uma atitude que a constrangeu.
A pessoa que antes participava começa a se retrair. A que contribuía passa a hesitar. A que confiava em seu julgamento começa a procurar, na reação dos outros, uma autorização para confiar em si mesma.
É importante não transformar esse processo em uma consequência inevitável: cada pessoa reage de uma maneira, e o mesmo ambiente pode ser vivido de formas distintas. Ainda assim, a repetição de experiências de desqualificação pode corroer a segurança de quem as enfrenta.
E há uma ironia dolorosa nisso tudo.
Enquanto algumas pessoas parecem precisar demonstrar continuamente que são superiores, outras passam a duvidar até mesmo de sua capacidade de realizar aquilo para o qual foram contratadas.
A primeira dinâmica ocupa o espaço. A segunda vai perdendo espaço.
No fim, o ambiente corre o risco de deixar de aproveitar justamente as contribuições que deveria estimular.
E quem produziu esse resultado talvez continue convencido de que o problema está na sensibilidade alheia.
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