Sonhos, reflexos e projeções #00216
Eu já me apaixonei muitas vezes nesta vida. Enxergava nas pessoas algo que eu desejava para mim: um gesto, uma postura, um sorriso diferente, disposição para encarar a vida, um modo singular de ver o mundo. O que eu via sempre me deixava embriagada de encanto. Era uma paixão intensa, quase luminosa. Havia um reconhecimento imediato, quase químico — como se ali estivesse aquilo que me faltava. Como toda embriaguez, vinha a ressaca. O momento em que eu percebia que não havia retorno algum. Doía demais. Não só a cabeça, mas o peito. Então eu me lançava ao sono, porque dormindo eu podia sonhar. E sonhava muito. Sonhos longos, vívidos, recorrentes, povoados pelos rostos, gestos e promessas silenciosas dos objetos do meu afeto. Mas os sonhos também incomodavam, porque acordar significava retornar a uma realidade sem a paixão e com a desilusão do mundo onírico ainda pulsando. Entrei em looping. Tudo doía. Como um vício, por muito tempo usei os sonhos como fuga. Até que entendi que o mund...