O que sobrou? #00383

Na jornada do Louco, em sua evolução como consciência, a Estrela é algo muito profundo.
Ela é aquilo que sobreviveu à verdade.
Percebamos a sequência:
O Diabo revelou as prisões.
A Torre derrubou as ilusões.
A Estrela mostra o que não dependia delas para existir.
A Estrela não traz nada novo. Ela só revela aquilo que nunca deixou de estar ali.
A gente pode perguntar: o que ainda brilha depois da destruição vivida na Torre?
E podemos acrescentar outras perguntas:  O que permaneceu inteiro? O que a queda não conseguiu destruir?
O que permaneceu que não dependia do cargo, da religião, do casamento, da profissão, da aprovação, da Torre?
O que pode ser ainda pode ser reconhecido como verdadeiro quando toda a poeira baixa?
Talvez seja por isso que a figura da Estrela aparece completamente despida: porque não restaram personagens.
A Torre levou embora os uniformes. As máscaras. Os títulos. As credenciais. Os pertencimentos. Os discursos.
A Estrela não precisa mais de nada disso. Ela simplesmente é o que é.

Depois da Torre, a Estrela não começa a brilhar.

Ela apenas deixa de estar escondida.

Depois que a Torre desaba, o primeiro sentimento costuma ser o vazio.

Durante algum tempo parece que tudo foi perdido.

As certezas.

Os planos.

As explicações.

As identidades.

A poeira cobre tudo.

E é justamente nesse silêncio que a consciência percebe algo inesperado.

Nem tudo desapareceu.

Há um brilho que permaneceu.

No primeiro nível do jogo, a Estrela representa esperança.

E representa mesmo.

Mas não a esperança ingênua de que tudo voltará a ser como antes.

Essa já morreu junto com a Torre.

A esperança da Estrela nasce de outra descoberta.

Existe algo em nós que sobrevive às quedas.

Algo que não depende das circunstâncias para existir.

A consciência começa então a procurar.

Não aquilo que perdeu.

Mas aquilo que permaneceu.

O que ainda me emociona?

O que continua verdadeiro?

O que ainda desperta minha curiosidade?

O que nenhuma decepção conseguiu apagar?

O que permaneceu vivo debaixo dos escombros?

Em níveis mais profundos, a consciência compreende que o brilho nunca desapareceu.

Apenas ficou encoberto.

Como uma joia esquecida sob a terra.

Como um espelho coberto de poeira.

Como uma nascente soterrada por uma avalanche.

Não é preciso fabricar uma nova estrela.

É preciso remover aquilo que a escondia.

Talvez seja por isso que a figura da carta esteja nua.

Ela já não precisa representar ninguém.

Já não precisa convencer.

Já não precisa parecer forte.

Nem parecer sábia.

Depois que tantas identidades caíram, resta apenas a presença.

No nível mais alto desse arcano, a consciência deixa de perguntar:

"O que perdi?"

E passa a perguntar:

"O que nenhuma perda conseguiu levar embora?"

Essa talvez seja a primeira pergunta realmente livre de toda a jornada.

Porque sua resposta não depende do mundo.

Depende apenas daquilo que reconhecemos como essencial.

Talvez essa seja a maior lição da Estrela.

O brilho nunca foi um prêmio concedido à consciência.

Sempre foi sua natureza.

As quedas apenas retiram aquilo que impedia sua luz de atravessar.

A Torre não destruiu a estrela.

Apenas derrubou o teto que escondia o céu.

E quando a poeira finalmente se assenta, a consciência descobre algo de uma simplicidade desarmante.

A luz que tanto procurava nunca esteve no alto.

Sempre esteve esperando que ela voltasse a olhar para dentro.

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