A felicidade que não precisava chegar depressa #00442

Há uma espécie de felicidade que só existe porque demorou.

Em Felicidade clandestina, Clarice Lispector conta a história de uma menina que deseja ardentemente um livro. O livro está nas mãos de outra menina, que promete emprestá-lo, mas adia, inventa desculpas, prolonga a espera. O desejo da criança vai crescendo justamente porque não pode ser satisfeito.

É uma história sobre um livro.

Mas também é uma história sobre poder.

Quem controla o acesso àquilo que o outro deseja possui, por algum tempo, uma espécie de poder sobre ele. A menina sabe que a outra quer o livro. E sabe que pode fazê-la esperar.

Clarice não transforma isso numa grande lição moral. Talvez porque crianças conheçam muito bem certas crueldades que os adultos preferem chamar de bobagem.

Depois, a mãe da menina descobre a situação e permite que o livro finalmente seja emprestado.

E então acontece algo ainda mais interessante.

A felicidade chega.

Mas a menina não corre para devorar o livro.

Ela o possui.

E isso basta.

Ela prolonga o instante. Adia a leitura. Estende a felicidade pelo maior tempo possível, como quem descobriu que algumas coisas ficam mais preciosas quando não são consumidas imediatamente.

É difícil imaginar esse comportamento hoje.

Vivemos numa época em que quase tudo chega depressa. A mensagem é instantânea. A comida pode chegar em minutos. A música está disponível antes mesmo de sabermos se queremos ouvi-la. O filme não precisa ser procurado. A informação aparece antes da pergunta terminar.

Até o desejo parece ter adquirido urgência.

Queremos.

Logo devemos ter.

E, quando temos, rapidamente queremos outra coisa.

Talvez por isso a menina de Clarice pareça tão estranha para um adulto contemporâneo. Ela não transforma a realização do desejo em consumo imediato. Ela saboreia a posse antes da experiência. Descobre que esperar também fazia parte da felicidade.

Setembro talvez seja um bom mês para lembrar disso.

Não porque setembro seja um mês de recomeços absolutos. Janeiro já levou essa fama e, francamente, costuma exigir demais de nós.

Setembro é diferente.

O ano já aconteceu o suficiente para sabermos que algumas promessas não se cumpriram. Algumas coisas mudaram. Outras permaneceram exatamente onde estavam. Há planos abandonados, desejos que perderam a importância e outros que, curiosamente, continuam ali.

É nessa altura do ano que podemos perceber uma coisa incômoda:

nem todo desejo precisa ser atendido imediatamente.

Alguns precisam ser examinados.

Ainda quero isso?

Ou quero porque passei muito tempo sem poder ter?

Quero porque é importante?

Ou porque alguém me fez acreditar que eu não poderia ter?

Quero mesmo?

Ou quero apenas terminar a espera?

Há desejos que sobrevivem porque são verdadeiros.

E há desejos que sobrevivem apenas porque foram negados.

Clarice não simplifica essa diferença. Ela mostra a criança desejando, sofrendo, esperando e, finalmente, recebendo aquilo que queria. Mas mostra também que a felicidade não estava apenas no livro. Estava na espera, na imaginação, na intensidade daquele querer.

Talvez seja essa a parte mais adulta da história.

Aprender que desejar não é uma vergonha.

Esperar também não.

E possuir alguma coisa não significa necessariamente precisar consumi-la até o fim.

Há felicidades que ficam menores quando são imediatamente transformadas em rotina.

Há outras que crescem quando temos tempo de perceber que chegaram.

Talvez setembro nos encontre exatamente nesse ponto: entre aquilo que ainda desejamos e aquilo que já temos.

Não é pouco.

É uma posição delicada, mas fértil.

Porque, quando o ano já perdeu a inocência de janeiro, conseguimos olhar para nossos desejos sem tanta fantasia. Alguns ainda permanecem. E isso diz alguma coisa.

Talvez seja justamente desses que devamos cuidar.

Sem pressa.

Sem transformar tudo em meta.

Sem exigir que toda vontade vire imediatamente conquista.

A menina de Clarice nos ensina uma coisa estranha para o nosso tempo: às vezes, a felicidade começa antes de possuir aquilo que desejamos. E, quando finalmente chega, talvez mereça alguns minutos de silêncio antes de ser consumida.

Há coisas que não precisam acontecer depressa para serem verdadeiras.

Algumas felicidades chegam tarde.

E chegam melhores porque, enquanto esperávamos, aprendemos o tamanho que elas tinham.

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