O mundo estava aqui o tempo todo #00443
Há momentos em que não precisamos mudar de vida.
Precisamos mudar o modo de olhar para ela.
É uma diferença pequena na frase e enorme na experiência.
Clarice Lispector passou boa parte de sua obra observando aquilo que quase sempre passa despercebido: uma pessoa na rua, um animal, uma conversa banal, um gesto doméstico, uma sensação que aparece sem avisar.
Em A descoberta do mundo, há justamente essa espécie de atenção.
O mundo não precisa se tornar extraordinário para ser descoberto.
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar quando estamos cansados da própria vida.
Esperamos acontecimentos.
Uma mudança de emprego. Uma casa nova. Uma viagem. Um amor. Uma notícia. Alguma coisa que chegue de fora e reorganize o que está dentro.
Enquanto isso, a vida continua acontecendo numa terça-feira qualquer.
O café esfria.
Alguém passa pela janela.
Uma planta cresce sem pedir licença.
Uma conversa deixa uma frase que fica.
O corpo sente alguma coisa antes de a cabeça entender.
E nós, muitas vezes, estamos ocupados demais esperando que a vida comece para perceber que ela já começou há muito tempo.
Setembro tem uma posição curiosa no calendário.
Janeiro ainda carrega a fantasia do começo.
Dezembro já está ocupado com a ideia do fim.
Setembro fica no meio.
Não tem a inocência da promessa nem a solenidade da despedida.
É um mês suficientemente distante do início para que algumas ilusões tenham caído.
E suficientemente longe do fim para que ainda possamos olhar em volta.
Talvez seja justamente por isso que setembro combine com descoberta.
Não a descoberta grandiosa.
A pequena.
Aquela que acontece quando percebemos que alguma coisa mudou em nós sem que tivéssemos planejado.
Uma música que antes não significava nada.
Uma rua que de repente parece bonita.
Uma pessoa que já não provoca o mesmo sentimento.
Um livro que finalmente entendemos.
Uma lembrança que deixou de doer do mesmo jeito.
Uma coisa que antes parecia indispensável e agora parece apenas uma coisa.
Não houve anúncio.
Nenhuma trombeta.
Apenas aconteceu.
Amadurecer talvez seja, em parte, perceber essas pequenas mudanças.
Durante muito tempo imaginamos que maturidade seria finalmente saber o que fazer.
Depois descobrimos que não.
Maturidade pode ser simplesmente perceber melhor o que está acontecendo.
Dentro.
Fora.
Entre uma coisa e outra.
É menos espetacular.
Também é mais útil.
Porque quem percebe não precisa transformar tudo imediatamente em decisão.
Pode observar.
Pode esperar.
Pode mudar de ideia.
Pode descobrir que aquilo que parecia um problema era apenas uma verdade que ainda não tinha encontrado nome.
Clarice tinha uma relação particular com o cotidiano porque sabia que o cotidiano não é pequeno.
Nós é que frequentemente olhamos pequeno.
Há uma vida inteira escondida nas coisas que consideramos banais.
E talvez uma das maiores formas de cansaço seja justamente essa incapacidade de encontrar novidade no que já conhecemos.
A mesma casa.
As mesmas pessoas.
Os mesmos caminhos.
Os mesmos pensamentos.
Até que alguma coisa dentro de nós muda de lugar.
Então a casa não é exatamente a mesma.
A rua não é exatamente a mesma.
A pessoa não é exatamente a mesma.
E talvez nada tenha mudado fora.
Mudou o olhar.
Isso não significa romantizar a vida.
Existem rotinas que precisam ser interrompidas.
Existem lugares dos quais precisamos sair.
Existem relações que precisam terminar.
Existem coisas que não melhoram apenas porque decidimos olhar para elas com mais delicadeza.
Mas também existe o contrário.
Existe uma vida que já contém alguma coisa boa e que não conseguimos enxergar porque estamos esperando uma vida completamente diferente.
Talvez setembro sirva para essa pergunta:
O que já está acontecendo na minha vida e eu ainda não estou vendo?
Não é uma pergunta de autoajuda.
É uma pergunta de atenção.
Porque talvez alguma coisa tenha crescido enquanto estávamos preocupados demais com aquilo que não cresceu.
Talvez alguma coisa tenha terminado enquanto continuávamos discutindo com ela.
Talvez alguma coisa tenha começado sem receber o nome de começo.
O mundo não parou esperando que estivéssemos prontos para percebê-lo.
Ele continuou.
E nós também.
Talvez descobrir o mundo seja isso.
Não encontrar um mundo novo.
Olhar novamente para este.
E finalmente perceber que ele nunca foi tão pequeno quanto parecia.
O mundo estava aqui o tempo todo.
Nós é que ainda não tínhamos chegado completamente.
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