O mundo não foi feito para nos poupar #00439
Existe uma idade em que ainda acreditamos que, se fizermos tudo certo, alguma espécie de acordo será respeitado.
Seremos cuidadosos.
Seremos bons.
Faremos o que esperam de nós.
E, em troca, talvez a vida seja razoavelmente justa.
Não precisa ser perfeita.
Só razoavelmente justa.
Depois alguma coisa acontece.
Uma perda.
Uma doença.
Uma traição.
Uma injustiça.
Uma pessoa que vai embora.
Um plano que desmorona.
E descobrimos uma coisa que ninguém gosta de descobrir:
não havia acordo.
Em “Perdoando Deus”, Clarice Lispector parte de uma experiência aparentemente pequena para chegar a uma questão enorme: o que fazemos com a nossa revolta quando a realidade não corresponde àquilo que esperávamos dela?
O título já contém uma provocação.
Perdoar Deus.
Mas perdoar por quê?
Por ter permitido o quê?
Por não ter protegido?
Por não ter correspondido à imagem que construímos?
Por não ter obedecido à lógica que imaginávamos existir?
A pergunta religiosa rapidamente se torna uma pergunta sobre a própria vida.
Porque mesmo quem não acredita em Deus pode reconhecer o sentimento.
Esperamos que a vida funcione de determinada maneira.
Criamos uma espécie de contrato invisível com a existência.
Eu faço minha parte.
Você faz a sua.
Eu me esforço.
Você me recompensa.
Eu amo.
Você não me abandona.
Eu sou cuidadoso.
Você me poupa.
Eu tento ser justo.
Você será justa comigo.
É um contrato infantil.
Mas é um contrato que muitos adultos continuam carregando.
Até o dia em que ele é rompido.
E então aparece a revolta.
Por que comigo?
Por que agora?
Por que isso?
Eu não merecia.
Talvez seja uma das perguntas mais humanas que existem.
E também uma das mais perigosas.
Porque “eu não merecia” pode ser verdadeiro.
Há coisas que realmente não merecemos.
Mas a realidade não distribui acontecimentos segundo mérito.
Pessoas boas sofrem.
Pessoas cuidadosas perdem.
Pessoas generosas são traídas.
Pessoas cruéis prosperam.
Crianças adoecem.
Projetos fracassam.
Relações terminam.
O mundo não possui um sistema automático de compensação moral.
Essa constatação é brutal.
Também pode ser libertadora.
Porque, quando abandonamos a expectativa de que a vida precisa nos recompensar por sermos bons, começamos a escolher o que fazemos não pelo prêmio que esperamos receber, mas pelo que consideramos certo fazer.
É uma mudança enorme.
Faço porque acredito.
Não porque será recompensado.
Amo porque amo.
Não porque existe garantia de reciprocidade.
Cuido porque escolhi cuidar.
Não porque isso me assegura que jamais serei ferido.
Isso não significa aceitar injustiça passivamente.
Muito pelo contrário.
Aceitar que a realidade não é automaticamente justa torna ainda mais importante construir justiça onde pudermos.
Mas existe uma diferença entre aceitar que o mundo não é justo e aceitar a injustiça.
Uma é lucidez.
A outra é desistência.
Clarice trabalha nesse território estranho em que revolta e aceitação não são exatamente opostos.
Às vezes precisamos primeiro nos revoltar para perceber o que realmente esperávamos.
A raiva revela expectativas.
Isso é interessante.
Quando ficamos furiosos porque alguém não fez aquilo que esperávamos, talvez a pergunta não seja apenas:
“Por que essa pessoa fez isso?”
Talvez seja:
“Que contrato eu imaginava que existia entre nós?”
Nem sempre havia contrato.
Às vezes havia apenas expectativa.
E expectativa não é direito adquirido.
Essa distinção pode poupar uma quantidade enorme de sofrimento.
Esperar não é possuir.
Amar não é possuir.
Cuidar não é possuir.
Ser bom não compra proteção.
Fazer o melhor possível não compra resultados.
E talvez amadurecer seja justamente abandonar a ideia de que podemos negociar com a realidade como quem negocia com uma pessoa.
A realidade não assina contratos.
Ela acontece.
Nós respondemos.
É pouco romântico.
É também muito mais próximo da verdade.
Por isso, “Perdoando Deus” pode ser lido para além da religião.
Há uma pergunta escondida no título:
o que precisamos perdoar na própria vida por ela não ter sido aquilo que imaginávamos?
Talvez seja preciso perdoar a infância que não foi como deveria.
O amor que não ficou.
O trabalho que não deu certo.
A pessoa que não fomos capazes de ser.
O tempo perdido.
As escolhas ruins.
As oportunidades que passaram.
Até mesmo algumas versões antigas de nós.
Perdoar não significa declarar que aquilo foi aceitável.
Significa parar de exigir que o passado se torne diferente para que possamos continuar.
É uma diferença brutal.
Enquanto exigimos reparação do passado, continuamos presos a ele.
Quando reconhecemos que aconteceu e não pode ser desacontecido, sobra outra tarefa:
o que farei com o que aconteceu?
Essa talvez seja uma das perguntas mais maduras que existem.
Não:
“Por que isso aconteceu comigo?”
Mas:
“Agora que aconteceu, o que faço com isso?”
Não temos controle sobre a primeira pergunta.
Podemos passar décadas procurando uma resposta.
A segunda está nas nossas mãos.
Não completamente.
Nunca completamente.
Mas o suficiente.
Setembro volta a aparecer como um mês de passagem.
Talvez porque certas passagens exijam exatamente isso:
parar de esperar que a realidade peça desculpas antes de continuarmos.
Há coisas que nunca serão reparadas da maneira como gostaríamos.
Há pessoas que nunca reconhecerão o que fizeram.
Há explicações que nunca virão.
Há perdas que permanecerão perdas.
A vida não devolve tudo.
Não fecha todas as contas.
Não esclarece todos os mistérios.
E, ainda assim, seguimos.
Não porque finalmente compreendemos.
Mas porque compreender tudo não é uma condição necessária para continuar vivendo.
Talvez seja esse o verdadeiro perdão.
Não dizer que aquilo foi bom.
Não dizer que não doeu.
Não dizer que estava certo.
Apenas retirar do passado o poder de continuar decidindo sozinho o que faremos com o presente.
O mundo não foi feito para nos poupar.
Essa não é uma notícia agradável.
Mas pode ser uma notícia libertadora.
Porque, se não existe garantia de que seremos poupados, também não precisamos passar a vida inteira esperando pela garantia.
Podemos viver.
Podemos escolher.
Podemos amar.
Podemos criar.
Podemos dizer não.
Podemos começar outra vez.
Não porque a vida finalmente nos prometeu segurança.
Mas porque descobrimos que não precisamos de uma promessa para continuar.
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