Quando já não sabemos quem somos #00444
Há momentos em que a vida não nos pede uma decisão.
Pede que suportemos não saber.
É uma situação particularmente desagradável para quem passou muito tempo construindo uma identidade.
Sabemos quem somos.
Ou pensamos saber.
Somos aquela pessoa.
Aquela profissão.
Aquela mãe.
Aquela filha.
Aquela mulher.
Aquela que aguenta.
Aquela que resolve.
Aquela que não desiste.
Aquela que sabe.
Até que alguma coisa acontece.
E a definição começa a rachar.
Em A paixão segundo G.H., Clarice leva sua personagem a uma experiência em que as referências habituais deixam de funcionar. O que parecia organizado perde a forma conhecida. O familiar se torna estranho. E aquilo que parecia ser uma identidade sólida começa a revelar que talvez fosse também uma construção.
É uma experiência quase assustadora:
descobrir que aquilo que chamávamos de "eu" talvez fosse apenas a maneira que encontramos para sobreviver até aqui.
Durante muito tempo, precisamos de nomes.
Eles organizam o mundo.
Sou isso.
Não sou aquilo.
Gosto disso.
Não gosto daquilo.
Faço assim.
Nunca faria assado.
Precisamos dessas fronteiras.
O problema começa quando confundimos fronteira com essência.
Porque uma pessoa pode passar anos sendo aquilo que a situação exigiu dela.
E, um dia, descobrir que não sabe mais o que deseja quando ninguém está exigindo nada.
Essa descoberta pode parecer um vazio.
Mas talvez seja apenas espaço.
Há uma diferença importante entre perder-se e deixar de caber naquilo que antes nos definia.
Nem todo desencaixe é fracasso.
Às vezes, é crescimento.
A árvore não está em crise porque deixou de ser semente.
Mas nós temos uma dificuldade enorme com nossas próprias metamorfoses.
Queremos mudar sem perder a explicação sobre quem éramos.
Queremos uma nova versão de nós mesmos, mas com todas as garantias da versão anterior.
Não funciona assim.
Algumas mudanças exigem uma pequena morte simbólica.
Não necessariamente de pessoas.
De papéis.
De expectativas.
De imagens.
De personagens que desempenhamos tão bem que começamos a acreditar que eram nossa única possibilidade.
Setembro combina com essa experiência porque já não estamos no começo.
Alguma coisa do ano já foi vivida.
Já fizemos escolhas.
Já erramos.
Já insistimos em coisas que talvez não devessem ter continuado.
Já percebemos algumas verdades.
E talvez este seja o momento em que uma pergunta apareça:
Eu ainda quero ser essa pessoa que estou tentando sustentar?
Não é uma pergunta confortável.
Porque pode haver uma resposta que complique tudo.
Talvez você não queira mais.
Talvez aquela ambição tenha perdido o brilho.
Talvez aquela necessidade de aprovação esteja cansando.
Talvez a imagem de força que você construiu esteja pesada demais.
Talvez a pessoa que você se tornou tenha sido necessária durante algum tempo.
E agora não seja mais.
Isso não apaga o que ela fez.
Pelo contrário.
Há versões nossas que merecem gratidão justamente porque fizeram o trabalho que precisavam fazer.
Mas gratidão não significa permanência.
Uma armadura pode ter salvado alguém e ainda assim precisar ser retirada.
O problema é que, quando tiramos uma armadura, por algum tempo sentimos falta do peso.
O corpo estranha.
A vulnerabilidade parece fraqueza.
O silêncio parece vazio.
A liberdade parece falta de direção.
E então surge a tentação de voltar ao personagem conhecido.
É mais fácil ser aquilo que já sabemos interpretar.
Mesmo quando já não somos.
Clarice é incômoda porque não oferece rapidamente uma nova identidade para colocar no lugar da antiga.
Ela não diz:
"Descubra quem você realmente é."
Talvez porque essa frase pressuponha que exista uma versão definitiva de nós esperando para ser encontrada.
Talvez não exista.
Talvez sejamos também aquilo que acontece enquanto tentamos descobrir.
Uma pessoa não é uma estátua.
É movimento.
Contradição.
Memória.
Desejo.
Medo.
Escolha.
Mudança.
Há coisas em nós que só aparecem quando as antigas estruturas deixam de funcionar.
Por isso, talvez não saber quem somos durante algum tempo seja menos perigoso do que continuar sendo alguém que já não conseguimos sustentar.
O vazio assusta.
Mas uma identidade falsa também cobra caro.
Talvez maturidade seja suportar esse intervalo.
Não correr imediatamente para uma nova definição.
Não transformar toda crise em projeto.
Não precisar anunciar uma nova versão de si mesma antes que ela exista.
Apenas permanecer.
Olhar.
Sentir.
Deixar cair o que já caiu.
E esperar para descobrir o que continua de pé.
Talvez a pergunta mais importante não seja:
Quem eu sou?
Mas:
O que em mim ainda é verdadeiro?
Porque algumas coisas vão embora.
Algumas permanecem.
E outras só conseguem nascer depois que paramos de tentar ser quem já fomos.
Há momentos em que não sabemos quem somos.
Talvez seja justamente aí que começamos a descobrir.
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