Correntes # 00477



Há correntes que não fazem barulho.

Não deixam marcas nos pulsos, não impedem que a gente saia de casa, trabalhe, sorria, viaje, conheça outras pessoas. Por fora, tudo parece liberdade. Por dentro, porém, alguma coisa continua amarrada.

Às vezes, sorrimos enquanto apertamos os próprios elos.

Chamamos de esperança aquilo que já se tornou espera. Chamamos de amor aquilo que talvez seja apego. Chamamos de destino aquilo que não conseguimos abandonar.

Há relações que nunca chegaram a acontecer, mas continuam acontecendo dentro da nossa cabeça. Pessoas com quem não vivemos uma história, mas com quem imaginamos tantas possibilidades que a ausência acaba adquirindo uma espécie de existência própria.

Há também as relações mal terminadas. Aquelas que deixam perguntas sem resposta, palavras atravessadas, promessas interrompidas e uma vontade persistente de voltar ao passado para corrigir uma cena, obter uma explicação ou finalmente ouvir aquilo que nunca foi dito.

E cada tentativa de resolver mentalmente o que não encontrou resolução na realidade pode acrescentar mais um elo.

O curioso é que, muitas vezes, a chave não está com a outra pessoa.

Está na nossa disposição de continuar esperando que ela faça alguma coisa para nos libertar.

Esperamos que reconheça, que se arrependa, que explique, que volte, que compreenda o que perdeu. E, enquanto esperamos, entregamos a alguém que já não está presente o poder de determinar o movimento da nossa vida.

Talvez romper uma corrente não seja esquecer. Nem apagar o que aconteceu. Muito menos fingir que não doeu.

Talvez seja retirar do passado o direito de administrar o presente.

É entender que uma história pode ter sido importante sem precisar continuar aberta. Que alguém pode ter despertado algo bonito em nós sem ter sido capaz de permanecer. Que uma possibilidade não realizada não precisa se transformar em uma dívida eterna.

Há um momento em que precisamos parar de polir as correntes e começar a procurar as fechaduras.

E talvez a liberdade comece justamente quando deixamos de perguntar por que alguém não nos soltou e percebemos que ainda estamos segurando a outra ponta.

Não quero mais confundir intensidade com prisão, saudade com destino, espera com fidelidade.

Quero poder lembrar sem retornar, reconhecer sem perseguir, agradecer sem permanecer.

Quero sorrir porque estou livre, não porque aprendi a disfarçar o peso dos meus grilhões.

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